Especialistas alertam que shakes e comidas mais líquidas não reproduzem todos os efeitos de uma refeição sólida
Shakes, bebidas proteicas, cremes e até sopas prontas vêm ganhando espaço como alternativas rápidas para quem tem uma rotina corrida ou dificuldade para fazer refeições convencionais. Mas, embora alguns desses produtos possam ser úteis em situações específicas, especialistas ouvidas pelo Tá Saudável alertam que nem sempre se equivalem a uma refeição completa.
Além disso, trocar regularmente o prato por um líquido pode trazer limitações nutricionais e afetar a saciedade. A composição do produto, as necessidades individuais e a frequência de uso fazem toda a diferença. O consenso é que esses itens podem ser aliados pontuais, mas não devem substituir indiscriminadamente uma alimentação variada.
Sopa não é janta?

Fãs de uma boa sopa, fiquem calmos. Uma sopa, por exemplo, pode reunir legumes, verduras, feijões ou outras leguminosas, carnes, ovos, grãos, tubérculos e fontes de gordura.
Da mesma forma, um caldo ou creme pode ter diferentes ingredientes e oferecer uma combinação interessante de carboidratos, proteínas, gorduras e fibras.
O objetivo aqui é justamente fazer uma reflexão sobre a qualidade nutricional do alimento que vai ser consumido e as diferenças do que é oferecido ao organismo de acordo com a consistência do preparo.
Sopas prontas ou cremes industrializados também podem ter uma composição pouco equilibrada para substituir sozinho uma refeição.
👉 Macarrão instantâneo saudável? Saiba o que avaliar antes de comprar
Beber vs. comer

Muitos desses substitutos de refeições têm a palavra proteína estampada no rótulo. É uma forma de chamar atenção dos consumidores, mas a nutricionista Rita Simões, do Hospital Nove de Julho, alerta que isso não basta. É preciso olhar para o conjunto.
“Para substituir uma refeição de forma adequada, é preciso considerar não apenas proteínas, mas também energia, carboidratos, gorduras, fibras, vitaminas e minerais.”
Um shake proteico, por exemplo, pode ser apenas uma fonte prática de proteína e não necessariamente um produto capaz de cumprir o papel nutricional de um almoço ou jantar.
Produtos formulados especificamente como substitutos de refeições podem apresentar uma combinação mais ampla de nutrientes. Ainda assim, a adequação depende da composição, das necessidades da pessoa e do restante da alimentação.
A nutróloga Paula Guidi, do Hospital Samaritano Higienópolis, também ressalta que esses novos produtos podem ser opções saudáveis para algumas pessoas e em situações pontuais, mas, de forma geral, a base da alimentação deve ser composta por alimentos in natura e por uma alimentação com a maior diversidade possível.
Mesmas calorias, efeitos diferentes

Duas refeições podem ter exatamente o mesmo número de calorias, mas isso não significa que o organismo responderá da mesma forma às duas.
Os alimentos sólidos exigem mastigação e, em geral, permanecem mais tempo no estômago. Esse processo também está relacionado a respostas diferentes dos mecanismos envolvidos na fome e na saciedade.
“Outro ponto importante é que bebidas podem ser consumidas muito mais rapidamente, facilitando a ingestão de uma quantidade maior de energia antes que os sinais de saciedade apareçam”, explica Paula.
O posicionamento da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) voltado ao tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade também destaca essa diferença. O documento cita evidências de que alimentos sólidos tendem, em geral, a promover maior saciedade do que versões líquidas.
Um dos exemplos apresentados compara o consumo de maçã in natura, purê e suco. A fruta inteira apresentou maior efeito sobre a saciedade, seguida pelo purê e, depois, pela versão líquida.
Quando os substitutos de refeições podem ser úteis?

Segundo Paula, esses produtos podem ser interessantes em dias especialmente corridos, quando a pessoa não tem tempo ou disponibilidade para fazer uma refeição completa.
Eles também podem ser utilizados em contextos clínicos específicos, como por pessoas submetidas a determinadas cirurgias e que apresentam restrição temporária à ingestão de alimentos sólidos.
Outro exemplo citado pela nutróloga são alguns pacientes em uso de medicamentos análogos de GLP-1. Como esses tratamentos podem reduzir o apetite, algumas pessoas podem ter dificuldade para atingir suas necessidades nutricionais, inclusive de proteína, apenas com alimentos sólidos.
Rita acrescenta que preparações desse tipo também podem ser consideradas em situações de baixa aceitação alimentar, falta de apetite, dificuldade de mastigação ou deglutição e quando há necessidade aumentada de determinados nutrientes.
👉 Whey concentrado, isolado ou hidrolisado: quais as diferenças e como escolher entre os tipos
Cuidados antes de fazer uma troca

Antes de trocar uma refeição por um substituto líquido, vale tomar alguns cuidados:
- olhar além da quantidade de proteína ou das calorias;
- avaliar as quantidades e proporções de proteínas, carboidratos, gorduras, fibras, sódio e a presença de vitaminas e minerais, considerando as necessidades individuais;
- verificar a quantidade de sódio especialmente no caso de sopas e outros produtos prontos;
- avaliar a lista de ingredientes;
- ver se há açúcares adicionados, que podem aparecer com nomes como dextrose, maltodextrina, xarope de glicose e maltose.
O que um substituto líquido não consegue reproduzir?

Mesmo produtos nutricionalmente formulados têm limitações quando comparados a uma alimentação variada.
“Eles não reproduzem completamente a experiência de uma refeição”, afirma Rita. “A alimentação envolve mastigação, variedade de alimentos, diferentes texturas e uma combinação ampla de nutrientes e compostos bioativos. Além disso, alguns produtos líquidos podem ter menor capacidade de promover saciedade, dependendo da sua composição e da forma como são consumidos.”
Paula alerta também que alguns produtos têm maior dificuldade para fornecer a diversidade de fibras presente em uma alimentação baseada em diferentes alimentos.
“O consumo dessa dieta pode levar a deficiência de algumas fibras e nutrientes, com impacto importante principalmente na microbiota intestinal.”
Riscos de sempre substituir refeições

A depender do produto, da quantidade consumida e do restante da alimentação, esses substitutos de refeições podem, de aliados, se transformarem em armadilhas.
Substituir grande parte das refeições por produtos prontos durante períodos prolongados pode reduzir a variedade alimentar.
A redução da mastigação e as diferenças na forma como alimentos líquidos e sólidos são consumidos também podem influenciar a relação com a fome e a saciedade.
O posicionamento da ABESO reforça que os substitutos de refeições podem fazer parte de uma estratégia alimentar, especialmente quando a conveniência é importante. No entanto, a indicação deve ser individualizada e levar em conta a rotina, os hábitos e a composição nutricional do produto.
O documento também ressalta que as evidências sobre os benefícios desses produtos são mais bem estabelecidas em estudos de duração limitada, havendo necessidade de mais pesquisas sobre seus efeitos no longo prazo.
E como fica a vida social?

Para a maioria das pessoas, uma alimentação baseada predominantemente em substitutos de refeições tende a ser pouco sustentável ao longo do tempo.
“Alimentação também envolve cultura, prazer, convivência e eventos sociais”, lembra Rita.
Paula também chama atenção para possíveis impactos de uma alimentação excessivamente restritiva na vida social. Na avaliação da nutróloga, o isolamento e a adoção de comportamentos alimentares pouco saudáveis podem se associar a um maior risco de transtornos e outros problemas relacionados à saúde mental.
Por isso, uma estratégia alimentar sustentável não deve depender apenas de praticidade ou de controle rigoroso. Ela também precisa caber na rotina e permitir flexibilidade. “Sem transformar situações sociais em momentos de culpa ou restrição”, completa Rita.
Referências: entrevistas com a nutróloga Paula Machado Guidi (CRM-SP 136053/ RQE 128485) e a nutricionista Rita Simões (CRN3 66794), além de posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).
