Médica analisa a popularização do mocktail de magnésio e explica mais sobre a suplementação desse mineral
Em meio à febre dos suplementos alimentares, uma tendência tem chamado a atenção nas redes sociais: o mocktail de magnésio. Aqui, a ideia é criar drinks sem álcool com elementos como bebidas adaptógenas, chás ou água com gás e combiná-los ao magnésio em pó ou líquido, tudo em busca de noites de sono melhores. Mas, afinal, funciona?
Entenda abaixo o que vale a pena ou não na tendência do mocktail de magnésio e o que dizem os médicos sobre a suplementação desse mineral.
Mocktail de magnésio: o que é? Funciona?

Tanto no TikTok quanto no Instagram, o mocktail de magnésio tem feito sucesso. Trata-se de uma bebida sem álcool que inclui o suplemento de magnésio em pó ou líquido e, com base nisso, internautas têm mostrado as próprias versões do “drink”. A lista de ingredientes é variada e costuma incluir, por exemplo, água de coco, água com gás, chás calmantes, suco de frutas e até bebidas funcionais ou adaptógenas.
Segundo relatos, consumir essa bebida antes de dormir não só melhoraria as noites de sono como também tornaria o momento da suplementação mais agradável, facilitando a adesão no dia a dia. Mas, afinal, faz sentido tomar esse “drink”? E será que a suplementação de magnésio realmente é para todos, em uso indiscriminado?
Para entender, Tá Saudável conversou com a médica endocrinologista Tassiane Alvarenga, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional de São Paulo (SBEM-SP).
Função do magnésio no corpo
Conforme explica a médica, o magnésio é um mineral importantíssimo que participa de mais de 300 reações enzimáticas no organismo. Isso significa que ele está envolvido em funções musculares, neurológicas, cardiovasculares e metabólicas. Além disso, o mineral tem participação essencial no sono – algo que justifica o interesse crescente de marcas e usuários de suplementos nele.
Deficiência de magnésio
Assim como outras vitaminas e minerais, o magnésio pode aparecer em baixa concentração no corpo, algo que pode configurar deficiência a depender dos níveis. Isso, segundo a médica endocrinologista, não é comum, mas pode acontecer principalmente por estes fatores:
- Má alimentação;
- Doenças intestinais que prejudicam a absorção de nutrientes (como doença celíaca e síndrome intestinal inflamatória);
- Diabetes;
- Alcoolismo crônico;
- Uso de determinadas medicações (como diuréticos ou inibidores da bomba de prótons).
De acordo com a especialista, essa deficiência pode, sim, trazer problemas no funcionamento do corpo, incluindo alterações de comportamento e até convulsões ou arritmias. Ela frisa, porém, que isso só acontece em casos de deficiência grave.
Esse cenário nem sempre traz sintomas – mas, quando aparecem, eles podem incluir:
- Câimbras frequentes;
- Espasmos musculares;
- Fadiga;
- Tremores;
- Irritabilidade.
Aqui, é essencial frisar que sintomas como esses são inespecíficos, ou seja: podem ter relação com diversas outras questões de saúde ou até psicológicas. Sendo assim, não é possível diagnosticar a deficiência de magnésio apenas pela avaliação dos sintomas – isso é algo que requer exames.
Suplementação de magnésio

Quando o assunto é suplementar magnésio, a médica é direta: isso não é necessário quando o indivíduo não tem deficiência do mineral. Ela explica inclusive que até mesmo pessoas com a deficiência podem melhorar os níveis do mineral tratando a condição que impede sua absorção ou até se alimentando melhor.
“Em muitos casos, é possível melhorar os níveis de magnésio a partir de comida de verdade, especialmente através do consumo regular de oleaginosas (castanhas, amêndoas e nozes), sementes (como a de abóbora, chia e linhaça), leguminosas (feijão, lentilha e grão-de-bico), verduras verde-escuras e cereais integrais. Quando existe deficiência confirmada, com sinais importantes ou condições que aumentam as perdas, a suplementação pode ser necessária”, pondera.
Nesse contexto, não existem evidências de que suplementar magnésio em quem não tem qualquer deficiência do mineral seja positivo. “O magnésio é essencial, mas isso não significa que a suplementação traga benefícios para todos. Em indivíduos sem deficiência, os benefícios são limitados e muitas vezes superestimados, como se o magnésio fosse uma pílula mágica capaz de consertar um estilo de vida ruim”, explica.
A médica frisa também que existem, sim, riscos relacionados ao excesso de magnésio no corpo. Ainda que ele seja um suplemento relativamente seguro, o uso indiscriminado pode causar:
- Diarreia;
- Náuseas;
- Acúmulo no organismo em pessoas com insuficiência renal.
Mocktail de magnésio: veredito
Mas, afinal, e o mocktail de magnésio? Nas redes sociais, adeptos do “drink” dizem que ele funciona – e, segundo Tassiane, isso pode ter relação com vários fatores. Ela explica que o simples fato de a pessoa criar um “ritual” noturno relacionado ao preparo de uma bebida já ajuda o corpo a entrar no “modo sono” a partir do momento em que isso se torna um hábito.
Além disso, ela também explica que o efeito da bebida sobre o sono pode não ter relação direta com o magnésio, mas sim com outros fatores relacionados a ela. “Muitas vezes, os relatos de melhora do sono e do relaxamento podem estar relacionados a fatores como hidratação ou consumo de chás com efeito calmante”, declara.
Sendo assim, o hábito de preparar algo para si antes de dormir como forma de se desligar das telas e tornar o momento mais confortável – especialmente se tratando de um chá – pode ser proveitoso. Em contrapartida, o uso do suplemento nessa bebida tende a não servir para nada.
“A popularização desse tipo de bebida reflete o interesse crescente das pessoas por saúde, sono de qualidade e bem-estar. Entretanto, é importante destacar que não existem evidências científicas robustas mostrando que uma bebida específica contendo magnésio tenha benefícios superiores aos da suplementação convencional ou de uma alimentação adequada, rica em comida de verdade. É importante evitar a ideia de que uma receita viral seja capaz de corrigir deficiências nutricionais ou substituir uma avaliação médica”, conclui a médica.

