Fitness 16 de julho, 2026 Por Gabriela Brito

Quando contrair o abdômen faz sentido durante os exercícios? Nem sempre protege a coluna

Entenda quando vale a pena ativar o abdômen e por que essa orientação não deve ser regra para todos os movimentos

Por muitos anos, a orientação de “contrair o abdômen” antes de qualquer movimento virou quase uma regra em academias, aulas de pilates e até nas atividades do dia a dia. A ideia era que essa ativação voluntária aumentaria a estabilidade da coluna e poderia ajudar no tratamento ou prevenção da dor lombar.

Mas uma nova pesquisa brasileira, publicada no Journal of Physiotherapy, tem feito especialistas repensar. O estudo mostrou que pessoas com dor lombar crônica que realizaram exercícios de pilates mantendo o abdômen relaxado tiveram uma melhora ligeiramente maior na incapacidade causada pela dor do que aquelas orientadas a manter a musculatura constantemente contraída.

Segundo a fisioterapeuta Keli Betto, especialista em dor entrevistada pelo Tá Saudável, isso não significa que contrair o abdômen seja errado, mas sim que essa orientação depende do contexto e não deve ser aplicada como uma regra universal.

De onde surgiu a orientação para contrair o abdômen?

Ativar o abdômen contra dor lombar
(Crédito: Yan Krukau/ Pexels)

“No passado acreditava-se que quem tinha dor lombar apresentava atraso na contração da musculatura profunda. Hoje, sabemos que isso não acontece”, explica Keli Betto.

A hipótese era que esse atraso diminuía a estabilidade da coluna e aumentava o risco de dor.

Com base nisso, fisioterapeutas passaram a ensinar exercícios específicos para ativar conscientemente essa musculatura. Ao mesmo tempo, o pilates ganhou popularidade tendo a ativação do chamado powerhouse, que é o conjunto de músculos do core, como um de seus princípios centrais.

A fisioterapeuta destaca que estudos posteriores mostraram que essa musculatura costuma ser ativada automaticamente pelo sistema nervoso quando necessário e que não é possível controlá-la de forma voluntária da maneira como se imaginava.

O que mostrou o novo estudo?

Benefícios ao contrair o abdômen
(Crédito: Maria Charizani/ Pexels)

Pesquisadores brasileiros acompanharam 152 pessoas com dor lombar crônica inespecífica durante 12 semanas. Todos realizaram exatamente os mesmos exercícios de pilates, duas vezes por semana.

A única diferença foi a orientação recebida:

  • um grupo foi instruído a manter o abdômen contraído durante toda a execução dos exercícios;
  • o outro foi orientado a realizar os movimentos de forma relaxada e fluida, sem preocupação com a contração abdominal.

Ao final do acompanhamento, o grupo que realizou os exercícios com o abdômen relaxado apresentou melhora discretamente maior na incapacidade relacionada à dor lombar. Para dor, função e percepção global de melhora, os resultados também favoreceram o grupo relaxado, embora as diferenças tenham sido pequenas.

Os autores ressaltam que os achados não significam que contrair o abdômen faça mal em todas as situações, mas desafiam a ideia de que essa ativação deva ser incentivada continuamente em pessoas com dor lombar crônica.

Excesso de atenção ao corpo pode aumentar a dor

o que fazer contra dor lombar
(Crédito: magnific/ Magnific)

Segundo Keli, buscar continuamente a ativação do abdômen pode até ter efeito reverso. Uma das explicações para esse resultado envolve um fenômeno conhecido como hipervigilância.

Quando a pessoa passa o tempo todo monitorando se está contraindo o abdômen, se está com a postura “correta” ou se determinado movimento pode machucar a coluna, ela pode desenvolver medo de se movimentar.

Ela explica que esse comportamento está relacionado às chamadas “bandeiras amarelas”, fatores psicológicos e comportamentais que influenciam a persistência da dor, como a catastrofização, quando a pessoa passa a enxergar a dor de forma exageradamente ameaçadora, e a cinesiofobia, o medo de realizar movimentos por acreditar que eles causarão lesões.

“Contrair o abdômen o tempo todo deixaria de ser protetor para ser lesivo”, alerta Keli.

Manter constantemente a musculatura rígida pode dificultar movimentos naturais e reduzir a mobilidade necessária para determinadas atividades.

Quando devemos contrair o abdômen?

Quando contrair o abdômen
(Crédito: magnific/ Magnific)

“Contrair o abdômen depende do contexto. O que não pode é ser uma regra para tudo”, reforça a especialista.

Ela explica que existem situações em que essa orientação continua sendo útil, como:

  • durante o aprendizado de um novo movimento, quando o aluno ainda apresenta pouca coordenação;
  • em alguns exercícios específicos para fortalecimento abdominal;
  • durante atividades de alta performance ou levantamento de cargas muito elevadas, quando uma maior rigidez do tronco ajuda na produção de força.

Nesses casos, a contração funciona como uma estratégia temporária ou específica, e não como uma orientação permanente para qualquer movimento.

O que fazer contra dor lombar?

Como tratar dor lombar
(Crédito: magnific/ Magnific)

Apesar da mudança de entendimento sobre a contração abdominal, uma recomendação permanece praticamente inalterada na literatura científica.

“Na minha experiência e no que diz a ciência, exercício físico é o carro-chefe para o tratamento da maioria das dores, com exceção de situações em que há contraindicação, como fraturas e quadros infecciosos.”

Keli ressalta que não existe um único tipo de exercício considerado superior para todas as pessoas. O mais importante é que a atividade seja realizada de forma regular, respeitando a capacidade física, a progressão das cargas e as características individuais.

Inclusive, o novo ponto de vista acerca da ativação do abdômen não coloca em dúvida os benefícios do pilates para pessoas com dor lombar crônica.

Diversas revisões sistemáticas já demonstraram que o método é eficaz para reduzir dor e melhorar a função física. O que o novo estudo sugere é que esses benefícios provavelmente não dependem da necessidade de manter o abdômen constantemente contraído.

Mais do que manter o abdômen permanentemente contraído, o objetivo deve ser recuperar a confiança no movimento, reduzir o medo de se mexer e permitir que o corpo execute suas funções de maneira natural.

Este artigo contém informações da entrevista do Tá Saudável com a fisioterapeuta especialista em dor Keli Betto (CREFITO 3/23.081-F) e do estudo “Keeping the abdomen relaxed versus contracted during Pilates improves disability slightly and may improve other outcomes in chronic non-specific low back pain: a randomised trial”, publicada no Journal of Physiotherapy.

Benefícios do pilates
(Crédito: Ahmet Kurt/ Pexels)

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