Fitness 01 de julho, 2026 • Por Fernanda Labate

O “treino invisível” dos atletas fora de campo: como jogadores se preparam para grandes campeonatos?

preparação dos jogadores para a Copa

A preparação dos jogadores para a Copa e outros torneios é cercada por mitos e pela ideia de técnicas milagrosas de recuperação, mas a base por trás do desempenho é mais simples do que parece

A preparação dos jogadores para a Copa do Mundo costuma ser associada a práticas como treino de passes, agilidade, disputas de bola, sessões de musculação e fisioterapia. Apesar disso ser o mais divulgado, porém, existe um trabalho específico de preparação dos jogadores fora de campo, que acontece longe das câmeras e ajuda a melhorar a performance sem necessariamente envolver as habilidades do atleta.

Segundo Marco Aurélio Melo, que atua há 18 anos como fisiologista do esporte na preparação dos jogadores fora de campo, esse processo serve justamente para otimizar a performance deles e, ao mesmo tempo, protegê-los ao máximo de possíveis lesões. Aqui, ainda que muitos imaginem técnicas como banheira de gelo, botas de compressão e mais tecnologias “diferentonas”, o foco está em pilares bem mais básicos.

Entenda abaixo o que os jogadores fazem fora de campo em momentos como a Copa do Mundo em termos de alimentação, técnicas de recuperação e mais:

Preparação dos jogadores para a Copa: técnicas, bases e mais

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(Crédito: Divulgação/CBF)

Quando se fala em esportes de alto rendimento, é comum que as pessoas imaginem atletas em banheiras de gelo ou saunas, fazendo dietas específicas, evitando certos alimentos e usando suplementos para performar melhor. Segundo Marco Aurélio, que tem passagem por clubes como Corinthians, Grêmio, São Paulo e Mirassol, além da própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF), porém, isso não corresponde à realidade de uma rotina de preparação dos jogadores para a Copa.

Segundo o fisiologista, essa preparação se baseia em pilares básicos, mas importantes, visando melhorar o desempenho físico do atleta, tornar a recuperação dele após os jogos mais eficaz e, acima de tudo, prevenir lesões. 

“O objetivo dessa parte de saúde de um clube é ter o atleta performando o melhor possível pelo maior tempo possível. Toda a nossa atuação ocorre no sentido de diminuir o risco do atleta se machucar e garantir que ele performe próximo da capacidade máxima que ele tem”, afirma o especialista.

Tudo isso se pauta em avaliações constantes da performance do jogador em cada uma das partidas e do histórico dele, e resulta na formulação de planos específicos para cada um deles. Esses planos, no entanto, giram em torno de dois pilares bastante simples, mas muito efetivos: sono e alimentação.

Sono dos atletas: importância e rotina

preparação dos jogadores para a Copa
(Crédito: Divulgação/CBF)

Marco Aurélio aponta o sono como um dos pilares mais determinantes para algo essencial na rotina de um jogador de futebol: a recuperação. Segundo ele, durante o sono, os tecidos do corpo se recuperam e os aprendizados se organizam. Isso significa que o sono é essencial para evitar lesões e garantir boa performance na próxima partida, tanto do ponto de vista físico quanto tático.

“Na Copa do Mundo, a maioria dos atletas está experimentando mais jogos próximos da sua capacidade máxima. Sem sono adequado, a recuperação fica extremamente comprometida”, declara o fisiologista, cujas falas sobre a importância do sono se respaldam na literatura científica.

Segundo uma revisão recente publicada no periódico Journal of Clinical Medicine, a privação de sono reduz os níveis de testosterona e do hormônio do crescimento, ao mesmo tempo em que eleva o cortisol. Esse cenário compromete a síntese de proteína muscular, retardando a recuperação dos tecidos – e não estamos falando de exageros: apenas uma noite sem dormir já basta para comprometer o corpo dessa forma.

Para adultos em geral, a American Academy of Sleep Medicine (AASM), em consenso com a Sleep Research Society, recomenda ao menos sete horas de sono por noite, no mínimo, para preservar a saúde e o desempenho. Já o sono dos jogadores de futebol, que são submetidos a cargas físicas mais altas, pode exigir mais tempo de descanso.

Alimentação dos atletas: macronutrientes e escolhas nos dias de jogo

(Crédito: Divulgação/CBF)

O sono é importante, mas, para surtir o efeito desejado (e completo), precisa se aliar ao outro pilar mais importante da preparação de atletas: a alimentação. Segundo o fisiologista, ela tem tanto o papel de repor o que o atleta gastou em campo quanto o de oferecer substrato para recuperação muscular.

Nesse sentido, os carboidratos são a principal fonte de combustível para as atividades de alta intensidade, enquanto a proteína tem o papel de agir sobre a recuperação da musculatura. Sendo assim, a dieta dos jogadores, de forma geral, precisa ter boas doses desses macronutrientes.

Essas orientações, inclusive, se alinham com as da Academy of Nutrition and Dietetics, da Dietitians of Canada e do American College of Sports Medicine (ACSM) sobre nutrição e desempenho esportivo. Essas cartilhas recomendam ajustar a ingestão de carboidrato e proteína conforme a demanda de treino e competição, priorizando também a qualidade e o momento do consumo desses alimentos.

Marco Aurélio frisa que cada jogador recebe recomendações nutricionais específicas com base em fatores como performance individual, dificuldades, velocidade de recuperação, necessidades particulares e gosto pessoal. Ainda assim, é padrão que a alimentação de jogadores de futebol antes do jogo (momento em que eles precisam de mais energia) siga certas diretrizes.

No dia anterior da partida, costuma haver um aporte maior de carboidrato, para garantir que ele tenha mais energia disponível. Já no pós-jogo, é importante ter um equilíbrio na combinação de carboidratos e proteínas, visando tanto repor o gasto energético quando iniciar a recuperação muscular.

Saúde mental também entra na conta

preparação dos jogadores para a Copa
(Crédito: Divulgação/CBF)

Além desses pilares, Marco Aurélio também aponta o estado emocional do atleta como algo determinante para o desempenho dele. “O atleta que não está seguro daquilo que tem capacidade de fazer, não vai performar. Ao mesmo tempo, se ele estiver muito confiante, pode ter rendimento básico”, diz ele, apontando ainda que possíveis questões pessoais do jogador também podem influenciar esse contexto.

Além disso, o especialista frisa também que a saúde mental interfere nos dois pilares mais importantes: sono e alimentação. “O atleta com certo grau de ansiedade acaba tendo, além de perturbação do sono, algum tipo de disfunção alimentar, comendo demais ou de menos. Eles não são máquinas – antes de tudo, são seres humanos”, pontua.

A saúde mental, no entanto, ainda é um tabu dentro de clubes. Segundo o fisiologista, não é raro que os clubes não tenham um terapeuta disponível para o time, e que jogadores tenham receio de possíveis quebras de confidencialidade. Ainda assim, Marco Aurélio afirma que esse tabu tem se rompido – e que, atualmente, boa parte dos jogadores busca auxílio psicológico por conta própria.

Dos mitos ao paliativo: banho de gelo entra onde?

(Crédito: Divulgação/CBF)

Ainda que seja comum ver atletas fazendo o famoso “cold plunge” (imersão em banheira de gelo para atletas) e utilizando outras técnicas populares de recuperação física, Marco Aurélio traz uma realidade dura: essas táticas representam apenas de 5 a 10% da eficácia do processo, e são medidas vistas como paliativas.

“A parte fundamental do processo de recuperação inclui alimentação e sono. Às vezes, porém, por questões logísticas, de viagens e horários, nem sempre é possível dar a melhor condição para o atleta. Quando isso acontece, usamos outras ferramentas para melhorar a percepção de dor do atleta”, esclarece ele.

Segundo o especialista, a preparação dos jogadores para a Copa e outros torneios importantes segue, hoje, evidências científicas mais robustas. Em resumo, trata-se do “básico bem feito” – e não mais de crenças como a de que comer alface antes da partida prejudica a performance do atleta, ou na ideia de se apoiar totalmente em técnicas pontuais.

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