Praticar exercícios descalço pode ajudar a fortalecer os pés e melhorar o equilíbrio, mas de forma inadequada aumenta riscos
Treinar descalço deixou de ser uma prática restrita ao ioga ou ao pilates e passou a ganhar espaço em academias e corridas. Nas redes sociais, vídeos de pessoas levantando peso sem tênis ou correndo com calçados minimalistas ajudaram a impulsionar a tendência, associada à ideia de movimentos mais naturais e maior conexão com o corpo.
Mas será que abandonar o tênis durante os exercícios é realmente seguro? Em entrevista ao Tá Saudável, a médica do esporte e ortopedista Ana Paula Simões afirma que a resposta depende de vários fatores. Embora existam benefícios em alguns contextos, a prática exige adaptação gradual e orientação adequada para evitar lesões.
Não existe um “melhor” universal

Para Ana Paula, não há uma regra única sobre treinar com ou sem calçado. “Não existe um ‘melhor’ universal. A escolha varia conforme a atividade, o objetivo e o nível de adaptação da pessoa.”
Na corrida, por exemplo, a especialista explica que ainda faltam estudos mais robustos para determinar se correr descalço é realmente superior ao uso de tênis tradicionais. Apesar disso, algumas pesquisas apontam mudanças biomecânicas potencialmente positivas.
“As diferenças biomecânicas sugerem que correr descalço pode trazer mudanças positivas em termos de prevenção de lesão, mas isso depende do padrão de pisada adotado, da experiência do atleta, do peso, do tipo de terreno, da força muscular e até do limiar de dor.”
Segundo ela, há muitas variáveis envolvidas para que a prática seja considerada segura.
Já nos treinos de força, como agachamento e levantamento terra, treinar sem tênis pode aumentar a sensação de estabilidade e contato com o solo. Ainda assim, isso não significa necessariamente melhora de desempenho.
Qual é a função do tênis?

O principal papel do calçado é proteger os pés e ajudar na absorção de impacto durante os exercícios.
“O tênis funciona como um escudo contra terreno irregular, objetos cortantes, temperatura e abrasão, além de distribuir e absorver parte das forças de impacto”, explica Ana Paula.
Por outro lado, modelos minimalistas ou a prática descalça exigem mais da musculatura dos pés e tornozelos justamente por oferecerem menos suporte.
A médica também destaca que existe a hipótese de que o uso excessivo de calçados muito estruturados possa “acomodar” a musculatura dos pés ao longo do tempo. Isso significa que, apesar da proteção, o excesso de suporte pode estar associado a menor exigência da musculatura intrínseca dos pés.
Situações em que o tênis é indispensável

Há casos em que o uso de calçado adequado deixa de ser uma escolha e passa a ser uma questão de segurança.
Segundo a especialista, isso vale principalmente para atividades com risco de impacto, perfuração ou abrasão dos pés, como corridas no asfalto, trilhas, esportes com mudanças bruscas de direção e musculação com cargas elevadas.
“Aqui o calçado adequado é questão de segurança, não de preferência”, reforça.
Pessoas com determinadas condições de saúde também precisam de atenção especial. Casos de neuropatia diabética, deformidades nos pés ou alterações de sensibilidade exigem proteção adequada para evitar ferimentos e complicações.
Quando treinar descalço pode fazer sentido?

Apesar dos cuidados necessários, existem situações em que a prática pode trazer benefícios importantes.
Segundo a especialista, a evidência científica mais consistente está relacionada ao fortalecimento da musculatura dos pés. Exercícios feitos descalço ou com calçados minimalistas podem estimular especialmente os músculos intrínsecos, responsáveis pela estabilidade e sustentação do arco plantar.
“A atividade descalça também pode fortalecer a musculatura do pé, aumentar a atividade dos mecanorreceptores cutâneos plantares e melhorar o equilíbrio e a estabilidade postural”, explica.
Por isso, o treino descalço costuma ser mais indicado em exercícios específicos de fortalecimento, propriocepção, mobilidade e alguns movimentos de força realizados em ambientes controlados.
Ainda assim, a médica faz uma ressalva importante: corredores acostumados ao uso de tênis podem perder estabilidade ao migrar abruptamente para a corrida descalça.
Os riscos da transição inadequada

O maior erro, segundo Ana Paula Simões, é fazer a mudança sem preparação.
“A transição precisa ser lenta e progressiva, acompanhada de fortalecimento.”
Ela cita estudos* que mostraram maior frequência de edema ósseo e fraturas por estresse em corredores que fizeram transição rápida e sem adaptação adequada.
Entre os principais riscos associados à adaptação inadequada estão:
- fraturas por estresse;
- sobrecarga na panturrilha;
- tendinite de Aquiles;
- estiramentos musculares.
Isso acontece porque a mudança da pisada aumenta a carga sobre a região posterior da perna, exigindo mais mobilidade, força e resistência muscular.
“Para adotar a pisada de antepé com segurança são necessárias amplitude de dorsiflexão do tornozelo, comprimento e força de panturrilha adequados.”
Ela também faz um alerta importante: pessoas com histórico de fratura por estresse nos pés normalmente não são boas candidatas para esse tipo de transição.
O crescimento dos treinos descalços acompanha uma busca maior por consciência corporal e exercícios mais funcionais. Porém, mais importante do que seguir tendências é entender as necessidades do próprio corpo, respeitar limites e buscar orientação profissional antes de mudar a forma de treinar.
No fim das contas, o tênis continua tendo papel importante na proteção e segurança. Já o treino descalço pode ser um aliado em contextos específicos, desde que feito com estratégia, progressão e supervisão.
*Ana Paula cita os artigos “Does Barefoot Running Reduce The Risk Of Injury?” e “Management and Prevention of Bone Stress Injuries in Long-Distance Runners”.

