Escrever para agradecer alguém teve mais efeito nos participantes do que apenas listar motivos para se sentir grato
Um estudo publicado na revista científica PNAS, da Academia de Ciências dos Estados Unidos, testou seis formas de induzir o sentimento de gratidão e observou melhorias imediatas no humor, no otimismo e em aspectos das relações sociais.
Foram acompanhados 10.696 participantes de 34 países, incluindo o Brasil. Entre as estratégias avaliadas, escrever e enviar uma mensagem para alguém a quem se é grato foi a que apresentou maior impacto. Já o popular exercício de fazer uma lista de cinco coisas pelas quais se é grato teve o menor efeito entre as seis intervenções testadas.
O que acontece quando praticamos a gratidão?

O estudo reuniu pesquisadores de diferentes países para investigar como as práticas de gratidão funcionam em culturas diferentes. Só no Brasil, o projeto contou com a participação de 598 voluntários.
Os cientistas compararam seis intervenções breves com três atividades de controle. Depois dos exercícios, os participantes responderam a avaliações sobre seu estado emocional, sua visão sobre a vida e seus sentimentos em relação às outras pessoas.
De forma geral, as práticas de gratidão produziram efeitos positivos imediatos. Os pesquisadores observaram:
- aumento do afeto positivo;
- redução do afeto negativo;
- mais otimismo;
- maior satisfação com a vida;
- aumento do sentimento de reciprocidade ou de obrigação de retribuir;
- redução do sentimento de inveja.
Os efeitos, porém, foram pequenos e variaram de acordo com a prática escolhida e com o país onde ela foi aplicada. Isso significa que a gratidão não funciona como uma fórmula universal capaz de provocar exatamente o mesmo resultado em todas as pessoas e culturas.
Um dos achados mais consistentes foi o aumento do afeto positivo, ou seja, de sentimentos agradáveis. Esse foi o benefício que se mostrou mais próximo de ser universal entre os diferentes contextos culturais analisados.
Os resultados se referem aos efeitos observados logo após os exercícios. O estudo não avaliou por quanto tempo essas mudanças permanecem.
Seis formas de praticar a gratidão

1. Enviar uma mensagem de agradecimento
A pessoa deveria escrever e enviar uma mensagem para alguém por quem sentia gratidão.
Essa foi a intervenção que apresentou o maior impacto no estudo. Para Paulo Sérgio Boggio, psicólogo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e um dos coautores brasileiros do trabalho, um possível motivo está justamente na presença explícita da conexão social.
A gratidão tem um componente que vai além de reconhecer mentalmente algo positivo. Quando ela é comunicada a outra pessoa, pode ajudar a fortalecer vínculos e estimular a reciprocidade.
2. Escrever uma carta, mas não enviá-la
Outra proposta era escrever uma carta para alguém a quem a pessoa se sentia grata, sem a necessidade de entregá-la.
O exercício também convida a olhar para as relações e reconhecer concretamente o que alguém fez ou representa na própria vida. Mesmo sem o envio, colocar essa experiência em palavras pode ser diferente de apenas pensar nela.
3. Fazer uma reflexão sobre dar e receber
Os participantes também puderam praticar uma forma de reflexão conhecida como Naikan. A proposta era pensar sobre acontecimentos da semana anterior e refletir sobre o que a pessoa recebeu dos outros, o que ofereceu e o que poderia ter feito para ajudar mais.
Esse tipo de exercício amplia a ideia de gratidão ao incluir não apenas aquilo que recebemos, mas também a forma como participamos das relações.
4. Pensar no que seria diferente sem aquilo que temos
Outra intervenção propunha que os participantes escrevessem sobre cinco acontecimentos do dia anterior pelos quais eram gratos e imaginassem como seria sua vida sem eles.
A ideia é tornar mais visíveis aspectos que podem passar despercebidos na rotina, justamente por já fazerem parte dela.
5. Escrever uma carta para uma força superior
Também foi testado um exercício de escrita direcionado a Deus, a uma força superior ou a outra entidade espiritual reconhecida pela pessoa, agradecendo pelo que recebeu.
6. Fazer uma lista de coisas pelas quais se é grato
A última estratégia consistia em listar cinco coisas pelas quais a pessoa sentia gratidão.
Embora seja provavelmente um dos exercícios mais conhecidos quando se fala em praticar gratidão, foi a intervenção que apresentou o menor impacto entre as seis avaliadas no estudo. Isso não significa que fazer uma lista não tenha efeito, mas sugere que, naquele conjunto de participantes, outras práticas, especialmente aquelas que envolviam uma conexão social mais direta, produziram resultados maiores.
Por que agradecer alguém pode fazer diferença?

Um dos principais pontos levantados pela pesquisa é a importância da dimensão social da gratidão.
Segundo os pesquisadores envolvidos no estudo, sentir-se grato pode aumentar a disposição para comportamentos de ajuda e reciprocidade. E essa resposta não precisa necessariamente ser direcionada à mesma pessoa que fez algo por nós.
Em outras palavras, receber um gesto positivo pode incentivar novos gestos positivos em outras relações. A gratidão, nesse sentido, pode ajudar a criar uma espécie de circulação de comportamentos de cooperação.
O estudo também avaliou efeitos de reciprocidade ou de obrigação moral depois de receber algo. Isso ajuda a mostrar que a gratidão pode ser uma emoção complexa: é possível sentir reconhecimento e bem-estar, mas também perceber uma sensação de estar em dívida.
Por isso, praticar gratidão não significa simplesmente tentar se sentir feliz ou ignorar experiências difíceis. Trata-se de reconhecer aquilo que recebemos, valorizamos ou construímos em nossas relações.
Resultados variaram de um país para outro

Um dos aspectos mais importantes do megaestudo foi justamente mostrar que os efeitos das intervenções não são iguais em todos os lugares.
A variação entre os países foi maior do que a diferença observada entre algumas das próprias práticas de gratidão. Segundo os resultados divulgados pela Agência FAPESP, o impacto foi mais intenso no México e quase nulo na Noruega. O Brasil ficou em uma posição intermediária.
Os pesquisadores investigaram ainda características culturais que poderiam ajudar a explicar essas diferenças. Aspectos como flexibilidade ou rigidez cultural, aceitação de hierarquias sociais e religiosidade apareceram entre os fatores associados à variação dos resultados.
Esse tipo de pesquisa é importante porque grande parte dos estudos sobre gratidão e bem-estar foi realizada em países ocidentais, especialmente nos Estados Unidos. Ao incluir 34 nações culturalmente diversas, o trabalho amplia a discussão sobre quais efeitos podem ser considerados mais universais e quais dependem mais do contexto.
Referências: estudo “A multinational megastudy of the effects of gratitude practices on subjective well-being. Proceedings of the National Academy of Sciences”, 2026; artigo “Megaestudo analisa impacto da prática da gratidão em 34 países”, da Agência FAPESP, 2026.

