Entenda o que é a peste pneumônica, como é a transmissão e o que dizem os grandes órgãos de saúde sobre o momento atual dessa condição
A peste pneumônica, doença já conhecida há séculos, passou a ser o centro de noticiários em diversos países recentemente. Isso porque, no momento, autoridades russas investigam a morte de uma funcionária de um instituto de pesquisa em Irkutsk, na Sibéria, por possível ligação com a doença – algo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) também afirmou estar acompanhando.
Embora ainda não exista a confirmação sobre a causa da morte da pesquisadora, ela trabalhava em um instituto de estudos justamente sobre a peste. Nesse contexto, segundo a mídia russa, cerca de 189 pessoas entraram em quarentena por contato com ela.
Entenda abaixo o que é essa doença, como ela se manifesta, qual o histórico dela no mundo e mais informações importantes.
Peste pneumônica: o que é e o que se sabe sobre o suposto caso na Rússia
A peste é uma doença infecciosa causada pela bactéria Yersinia pestis, que normalmente vêm de mamíferos ou das pulgas que vivem neles, de acordo com a OMS. Essa doença, no entanto, não tem apenas uma apresentação, e sim três: bubônica, septicêmica e pneumônica.
A última, inclusive, é a forma vista como mais grave da doença, além de ser a única delas com possibilidade de transmissão entre pessoas, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Essa forma da peste acontece quando a bactéria infecta os pulmões, causando um quadro grave na maior parte das vezes.
O caso que colocou o tema em evidência aconteceu em Irkutsk, na Sibéria. Lá, existe circulação da bactéria em animais silvestres, e a morte de uma pesquisadora de 28 anos por uma “pneumonia de origem não estabelecida” levantou alerta, segundo informações da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM). Até o momento, a causa exata da morte não foi confirmada, mas a suposição sobre a peste voltou as atenções à condição.
De acordo com a OMS, nenhuma das 189 pessoas que tiveram contato com a pesquisadora e estão sob observação médica apresentou qualquer sintoma, e nenhum patógeno de doenças infecciosas perigosas foi detectado. Agora, o governo vigia de perto a região onde tudo aconteceu, anunciando medidas contra uma possível infecção grave, mas sem citar a doença.

Como a peste pneumônica é transmitida?
A transmissão da peste pneumônica ocorre por gotículas respiratórias. De acordo com o CDC, porém, isso exige contato muito próximo com alguém que esteja tossindo ou espirrando, já que não há evidências de alta propagação pelo ar, como acontece com o sarampo, por exemplo.
Para pegar peste pneumônica, o contato não precisa necessariamente ocorrer com alguém que tem essa forma da doença. A transmissão também acontece, por exemplo, pelo contato com alguém que tem a peste bubônica ou septicêmica – e o quadro se transforma em peste pneumônica conforme a bactéria chega ao pulmão.
Além disso, a OMS informa que a transmissão também é possível pela picada de pulgas infectadas e pelo contato desprotegido com fluidos corporais infecciosos ou materiais contaminados.
Quais foram os outros casos de peste pneumônica?
Essa doença já causou epidemias, e uma das maiores foi a da Manchúria, na China, entre 1910 e 1911. Nesse período, essa apresentação da praga se espalhou pelas ferrovias e causou cerca de 60 mil mortes, segundo documento do acervo da Universidade de Cambridge.
Mais recentemente, em 2017, Madagascar enfrentou um surto de praga em que a maior parte dos casos tinha a apresentação pneumônica. Entre agosto e novembro daquele ano, houve 2.348 casos confirmados, prováveis e suspeitos, sendo 1.791 deles na forma pneumônica. Na ocasião, a OMS registrou 202 mortes.
Já entre 2019 e 2025, a maior parte dos casos de peste informados à OMS veio da República Democrática do Congo e de Madagascar. Além disso, nos Estados Unidos, o CDC contabilizou 18 casos de peste pneumônica entre 1942 e 2018.

Existe peste no Brasil?
O Brasil tem duas áreas com focos naturais da doença – ou seja, circulação de animais silvestres que podem ter a bactéria. Uma delas é no Nordeste, e outra delas é em Teresópolis, no Rio de Janeiro, conforme informa o Ministério da Saúde. Ainda assim, o órgão afirma que o País não registra casos de peste em humanos desde 2005.
Peste pneumônica: sintomas
Os sintomas da doença, segundo o CDC, incluem febre, dor de cabeça, fraqueza e pneumonia de evolução rápida com falta de ar, dor no peito e tosse (às vezes com muco com sangue). Como a incubação da bactéria dura de 1 a 3 dias, os sintomas podem aparecer menos de 24 horas após a infecção, segundo a OMS.
Isso diferencia essa peste da bubônica, por exemplo, que tem como sintomas inchaço e dor nos gânglios linfáticos, além de febre e calafrios.
Como o início da forma pulmonar da peste lembra o de outras infecções bacterianas, a confirmação do diagnóstico ocorre apenas após testes laboratoriais com amostras de escarro e sangue.
Peste pneumônica mata?
Quando o paciente não recebe tratamento, a peste pneumônica é quase sempre fatal, segundo o CDC, podendo matar após um período de 18 a 24 horas depois do surgimento dos sintomas. Com tratamento eficiente, porém, o cenário muda, e a OMS afirma que, quando há diagnóstico e início dos medicamentos em até 24 horas após o início dos sintomas, a taxa de recuperação é alta.

Doença pode virar pandemia?
Até agora, as avaliações divulgadas apontam para risco baixo de o caso se espalhar para além da região, caso se trate mesmo da peste. De acordo com a OMS, a avaliação inicial, feita com as informações que existem até o momento, é de risco moderado a baixo para Irkutsk, baixo para a Rússia e muito baixo para a Europa.
Nesse contexto, Brendan Wren, professor de patogênese microbiana da LSHTM, afirma que a transmissão da peste entre pessoas é relativamente incomum em comparação com a de vírus respiratórios como o da Covid-19. Com base nos relatos atuais, ele avalia ser improvável que o caso leve a uma epidemia mais ampla.
A peste tem cura? Como se trata?
O tratamento dessa doença ocorre por meio de antibióticos e precisa começar o quanto antes. Nesse contexto, tanto o CDC quanto o Ministério da Saúde orientam iniciar o tratamento assim que houver suspeita da doença, sem esperar o resultado de exames, e os remédios mais usados incluem gentamicina e fluoroquinolonas.
