Médicas explicam qual é o momento ideal para o desmame do mounjaro, como deve estar a vida do paciente e o que fazer para evitar o reganho
Mounjaro, Wegovy e outras medicações semelhantes revolucionaram o tratamento da obesidade no mundo inteiro. Isso porque, sem cirurgias, elas permitem que o paciente reorganize a rotina e crie hábitos saudáveis sem o “barulho” causado pelos sintomas da doença, que podem incluir fome exacerbada, compulsão alimentar e mais.
Essas medicações aumentam o tempo de saciedade e, assim, reduzem o apetite. Por isso, há grande receio quanto ao momento do desmame, visto que muitas pessoas retomam os hábitos antigos e, com isso, reganham todo o peso perdido. Tudo, no entanto, é questão de estratégia, e profissionais da saúde garantem que existem chances de sucesso no tratamento.
Veja abaixo o que médicos aconselham para a vida após o Mounjaro, incluindo estratégias para manter a alimentação regulada, afastar os sintomas da obesidade (que permanecem mesmo após a perda de peso) e garantir um reganho baixo ou nulo:
Mounjaro: desmame ou uso contínuo?

Conforme explica a médica endocrinologista Patrícia Baines Gracitelli, especialista em medicina do estilo de vida, não há, ainda, um consenso sobre a retirada do medicamento no tratamento da obesidade. Isso porque essa é uma doença crônica, cujos sintomas acompanham o paciente mesmo após o emagrecimento.
“Nosso cérebro registra o peso máximo que já tivemos, e vai sempre buscar esse peso novamente quando você perde. Quanto maior o peso e a perda, mais o corpo vai querer recuperar o peso antigo”, afirma a médica, explicando que quanto mais peso o paciente perde, maior fica a fome dele.
Estima-se, segundo ela, que cada quilo perdido gera a necessidade de consumir 100 calorias a mais. Sendo assim, pessoas que perdem, por exemplo, 10 kg, tendem a ter 1 mil calorias adicionadas ao apetite normal. “É difícil controlar isso sem o medicamento – e não porque a pessoa não tem autocontrole, mas porque essa é a fisiologia da obesidade”, explica.
Dessa forma, muitos médicos defendem a ideia de não retirar o medicamento, mas sim manter uma dose de manutenção. É possível, por exemplo, espaçar as doses que costumavam ser semanais, e manter uma aplicação mensal – algo inclusive recomendado por sociedades médicas.
É preciso frisar, inclusive, que manter o medicamento não é sinal de fracasso. A endocrinologista explica que isso se assemelha, por exemplo, ao tratamento contínuo para colesterol alto e outras doenças que, assim como a obesidade, também são crônicas.
Desmame do Mounjaro pode ser inevitável, mas tem momento “certo”

Tanto a endocrinologista quanto a médica nutróloga Andyara Gelmini concordam que o paciente deve estar em um cenário muito específico caso queira ou precise retirar a medicação. Por questões financeiras, por exemplo, pode ser necessário fazer o desmame – e o paciente precisa estar preparado em várias áreas da vida.
Segundo as médicas, é necessário que o paciente:
- Tenha aderido à prática regular de exercícios regulares, incluindo treinos de força e atividades aeróbicas;
- Mantenha um dia a dia ativo para além dos exercícios;
- Tenha uma rotina alimentar estruturada;
- Durma muito bem (de 7 a 9 horas por noite);
- Tenha controle de distúrbios como compulsão alimentar e ansiedade;
- Apresente peso estável por meses;
- Conheça e saiba aplicar estratégias de controle do estresse.
Ganho de peso é evitável após o desmame?

Segundo a nutróloga, é esperado que, mesmo em meio à rotina ideal e seguindo estratégias para manter o peso, é esperado que o paciente tenha um pequeno ganho de peso após o desmame do Mounjaro. “Algo em torno de 2 a 5% do peso corporal – o que não necessariamente representa falha no tratamento”, diz ela, explicando.
“Isso acontece porque o apetite fisiológico retorna, há uma pequena adaptação metabólica e o paciente naturalmente passa a ingerir um pouco mais de alimento”, afirma.
É por isso que, para a endocrinologista, esse momento crítico requer muita atenção do paciente com a rotina e, especialmente, acompanhamento médico regular. “É importante ter um ‘peso de alerta’. Se chegar nele, você precisa rever o que fez nos últimos dias. Comeu mais? Está mais estressado? Dormiu mais? Diminuiu o ritmo de treino?”, contextualiza Patrícia.
Estratégias para manter o peso após o desmame do Mounjaro

Caso o paciente queira ou precise retirar a medicação e tenha a rotina perfeitamente adequada para isso, ele deve aderir a diversas estratégias para conseguir manter o peso após o Mounjaro. Elas incluem “truques” relacionados à alimentação, monitoramento do peso e mais.
Veja abaixo o que as duas médicas recomendam:
Priorizar proteínas nas refeições
Segundo a nutróloga, proteínas prolongam a saciedade. Sendo assim, estratégias como apostar em um café da manhã proteico para evitar exageros nas demais refeições ou consumir whey protein antes de eventos sociais para não chegar neles com muita fome podem ajudar.
Ter horários pré-estabelecidos para comer
“Longos períodos de jejum seguidos de grande ingestão de alimentos aumentam o risco de exageros nas refeições”, explica a nutróloga.
Treinar a percepção de saciedade
Aprender a reconhecer os sinais reais de fome e saciedade é essencial para a manutenção de um peso saudável. Isso porque, muitas vezes, o que parece fome é, na realidade, outra necessidade fisiológica ou até o que se conhece por “fome emocional”.
Se atentar a esses sinais ajuda a comer apenas quando realmente existe fome.
Manter o sono regulado
A privação do sono, especialmente frequente, aumenta a secreção de hormônios ligados à fome. Sendo assim, quem costuma dormir menos de 7 horas por noite tende a ter mais fome ao longo do dia, algo que prejudica tanto o emagrecimento quanto a manutenção do peso.
Ter atividade física como uma das prioridades
O treino de força é o que mais ajuda a construir músculos – e ter bastante massa muscular melhora o metabolismo. Sendo assim, é essencial que o paciente tenha a atividade física como algo inegociável na rotina, garantindo assim a “compensação” das calorias ingeridas e a manutenção da massa magra.
Segundo a endocrinologista, recomenda-se 300 minutos de atividade física moderada por semana, divididos como for mais vantajoso. É importante treinar força ao menos três vezes na semana, além de manter o dia a dia ativo, com ao menos 7 mil passos diários.
Comer salada antes de qualquer refeição
Legumes e vegetais têm poucas calorias, mas são ricos em fibras. Sendo assim, eles contribuem para uma saciedade duradoura, diminuindo a ingestão de alimentos calóricos no restante da refeição.
Sendo assim, antes de qualquer prato equilibrado, indica-se ingerir boa quantidade de salada, estratégia que ajuda a manter a ingestão calórica dentro do que o corpo gasta.
Carregar lanches saudáveis e adaptar os ambientes
Fora de casa e no trabalho, as opções são tentadoras. É mais fácil, por exemplo, de ceder à vontade de comer algo muito calórico simplesmente por ter passado na frente de uma doceria – especialmente se estiver com fome.
Sendo assim, a endocrinologista aconselha adaptar os ambientes, tendo lanches saudáveis para evitar a fome em momentos inoportunos, e não ter doces ou “besteiras” por perto nem na gaveta do trabalho, nem na cozinha.
Evitar bebida alcoólica
Bebidas alcoólicas têm o que se chama de calorias vazias – ou seja, calorias que vêm sozinhas, sem qualquer nutriente que compense seu consumo. Elas não geram saciedade e não nutrem, se tornando um consumo de calorias desnecessário que atrapalha a manutenção do peso.
Planejar as refeições que fará em restaurantes
Comer é um ato social e, por isso, não é indicado que pacientes deixem de lado as idas a restaurantes, aniversários e mais. Indica-se, porém, que ele se planeje checando o cardápio do local para decidir antes o que vai comer, optando por opções equilibradas e com boa ingestão de proteínas.
Priorizar comida caseira
Ultraprocessados e pratos de restaurantes costumam ter muito mais calorias do que uma comida feita em casa – ou comprada, mas elaborada de forma caseira. Sendo assim, é preferível que o paciente aposte em comida “de verdade”, com preparo controlado, para evitar exageros.
Manter um hobby
Hobbies são interessantes para o controle do estresse – e, consequentemente, do apetite ou da “fome emocional”. Sendo assim, a endocrinologista indica aderir à prática frequente de uma atividade que “desligue” a resposta ao estresse.
Se pesar constantemente
Dentro do possível, a endocrinologista recomenda que pacientes se pesem com frequência. “Estudos mostram que quem se pesa quatro vezes ou mais por semana tem mais sucesso”, diz ela, explicando que isso ajuda a monitorar o peso e evitar entrar em “modo automático” com a rotina.
Ter comunicação franca e frequente com o médico
“Saber que tem alguém para quem você ‘presta contas’ ajuda a manter o foco”, explica a endocrinologista, defendendo consultas a cada dois ou três meses na fase de manutenção e a comunicação aberta com o médico por outros meios entre as consultas especialmente após o desmame do Mounjaro.
“Quanto mais próximo o contato com um profissional da saúde, maior a chance de manter o peso”, conclui.

