Boa hidratação, consumo de fibras e escolhas alimentares podem ajudar a reduzir desconfortos gastrointestinais
O uso de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida, liraglutida e tirzepatida, pode provocar alterações gastrointestinais, principalmente no início do tratamento. A própria ação do GLP-1 sobre o sistema digestivo ajuda a explicar parte desses sintomas: além de participar da regulação da glicemia e da saciedade, o hormônio pode retardar o esvaziamento do estômago e alterar a motilidade do trato gastrointestinal.
Em entrevista ao Tá Saudável, a endocrinologista Silvana Pinheiro Neiva, do Departamento de Obesidade e Síndrome Metabólica da Sociedade Brasileira de Diabetes, explica por que isso acontece e quais cuidados podem ajudar a manter o intestino funcionando bem.
Por que as canetas emagrecedoras afetam o intestino?

Os medicamentos análogos de GLP-1 imitam a ação de um hormônio produzido naturalmente pelo organismo. As incretinas, grupo do qual o GLP-1 faz parte, são hormônios intestinais envolvidos principalmente na regulação da glicose e da secreção de insulina.
Mas sua atuação não se limita ao metabolismo. O GLP-1 também interfere na movimentação do sistema gastrointestinal. Segundo Silvana, essa ação deixa o trânsito digestivo mais lento.
“Especialmente no início do tratamento, são comuns sintomas como náuseas, enjoos e, dependendo da quantidade de alimento, pode até ter vômitos. Mais comumente, a pessoa pode ter a constipação ou até a diarreia.”
Cuidados com o intestino
Atenção à hidratação

Para quem está em tratamento, cuidar do intestino começa por uma medida simples: beber água regularmente.
“Primeiramente, manter uma boa hidratação”, orienta Silvana. Segundo a endocrinologista, uma ingestão adequada de líquidos ajuda no funcionamento intestinal e pode contribuir para reduzir a constipação.
A médica cita como referência de 2 a 3 litros de água por dia. Essa quantidade, porém, não deve ser entendida como uma regra universal: a necessidade de líquidos varia de acordo com características individuais, alimentação, atividade física, clima e condições de saúde.
Aumente as fibras aos poucos

Outro ponto importante é a ingestão de fibras. Elas estão presentes naturalmente em alimentos como frutas, verduras, legumes, feijões, lentilha, grão-de-bico, aveia, sementes e cereais integrais.
As fibras ajudam a formar e dar volume às fezes e podem favorecer o funcionamento intestinal. Para adultos, referências brasileiras e internacionais indicam, em geral, ingestão na faixa de 25 a 30 gramas por dia, com individualização conforme a alimentação e as necessidades de cada pessoa.
Silvana recomenda aumentar o consumo de fibras durante o tratamento. É importante, porém, fazer isso gradualmente, principalmente para quem não está acostumado a uma alimentação rica nesse nutriente.
O aumento rápido pode provocar gases, distensão abdominal e outros desconfortos. A própria Sociedade Brasileira de Diabetes destaca que a quantidade de fibras deve ser ajustada individualmente.
O objetivo não é aumentar as fibras de forma indiscriminada, mas adequar a ingestão à tolerância e ao funcionamento intestinal.
Menos gordura, fritura e alimentos muito condimentados

A composição das refeições também pode influenciar a tolerância ao tratamento. “Os alimentos extremamente gordurosos aumentam tanto a náusea quanto o enjoo, como também a probabilidade da diarreia”, afirma Silvana.
Por isso, especialmente quando os sintomas aparecem, pode ser importante reduzir frituras e preparações muito gordurosas. A endocrinologista também recomenda evitar alimentos muito condimentados.
Segundo a Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, o acompanhamento nutricional pode ajudar no manejo dos eventos adversos gastrointestinais e também na manutenção de uma ingestão adequada de nutrientes durante o tratamento.
O intestino também influencia no controle do peso e da glicemia

Cuidar do intestino durante o uso das canetas não significa apenas tentar evitar efeitos colaterais. O órgão também tem papel importante no metabolismo.
Uma das razões está justamente nas incretinas. O intestino é o principal responsável por produzir hormônios como o GLP-1, que participam da regulação da liberação de insulina e glucagon de acordo com a chegada dos nutrientes.
“O intestino é um órgão extremamente importante, tanto no controle da obesidade quanto no controle do diabetes”, resume Silvana.
Outro componente dessa relação é a microbiota intestinal, formada por microrganismos que vivem no trato gastrointestinal. Ela participa da transformação dos nutrientes da alimentação e produz substâncias que podem interferir em processos relacionados à saciedade, ao metabolismo energético e à regulação da glicemia.
A composição da dieta também pode modificar a microbiota intestinal. O posicionamento da Abeso sobre tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade destaca que padrões alimentares ricos em fibras estão associados a um ambiente mais favorável para a microbiota. Já dietas com excesso de gordura, açúcar e baixo consumo de fibras estão relacionadas a alterações na composição e na diversidade bacteriana.
Durante o tratamento, não basta olhar apenas para a quantidade de comida. A qualidade nutricional da alimentação também importa, especialmente quando a fome diminui.
Sintomas persistentes precisam de avaliação

Náusea, constipação ou diarreia podem ocorrer durante o tratamento, mas não devem ser simplesmente ignoradas quando são intensas, persistentes ou interferem na alimentação e na hidratação.
A Anvisa alerta que os agonistas de GLP-1 devem ser utilizados conforme as indicações aprovadas e com acompanhamento de profissional habilitado.
Também é importante procurar atendimento diante de sinais de alerta. Dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando acompanhada de náuseas ou vômitos, pode indicar uma condição que exige avaliação médica.
Referências: entrevista com a endocrinologista Silvana Pinheiro Neiva (CRM-MG 29108/RQE 22011); Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – Abeso 2026; Posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade do departamento de nutrição da Associação Brasileira para o estudo da obesidade e da síndrome metabólica – Abeso 2022.
