Compra ilegal e busca por emagrecimento rápido acendem alerta sobre os riscos do uso dos medicamentos sem indicação
As chamadas “canetas emagrecedoras” se tornaram um dos assuntos mais comentados quando o tema é perda de peso. Nas redes sociais, influenciadores, celebridades e até anúncios irregulares ajudam a impulsionar a procura por medicamentos que prometem reduzir o apetite e acelerar o emagrecimento. Mas o que muitas pessoas ignoram é que esses remédios foram desenvolvidos para tratar doenças específicas.
O crescimento da venda pela internet, sem receita médica e até com produtos sem aprovação da Anvisa, preocupa especialistas e autoridades de saúde. Além dos riscos ligados ao uso inadequado, há também o perigo do mercado ilegal, da automedicação e da falsa ideia de que emagrecer rápido é sinônimo de saúde. Em meio ao “boom” das canetas, médicos reforçam: esses medicamentos podem trazer benefícios importantes quando bem indicados, mas também exigem acompanhamento rigoroso.
O que são análogos de GLP-1?
Os medicamentos conhecidos popularmente como “canetas para emagrecer” fazem parte de uma nova geração de tratamentos voltados para obesidade e diabetes tipo 2. Entre eles estão substâncias como semaglutida, liraglutida e tirzepatida, classificadas como agonistas do receptor de GLP-1 e, em alguns casos, agonistas duplos de GIP/GLP-1.
Esses fármacos atuam imitando hormônios produzidos naturalmente pelo intestino após a alimentação. Essas substâncias enviam sinais ao cérebro, ao estômago e ao pâncreas para informar que o alimento chegou ao organismo.
Na prática, isso provoca três efeitos principais:
- redução da fome e do apetite;
- aumento da sensação de saciedade;
- melhora do controle da glicose no sangue.
Também ocorre um retardo no esvaziamento gástrico, o que faz a pessoa permanecer saciada por mais tempo. Por isso, muitas relatam comer menos ao longo do dia e apresentar perda de peso consistente.
Ainda assim, os resultados variam de pessoa para pessoa. Fatores genéticos, metabólicos, comportamentais e hábitos de vida influenciam diretamente a resposta ao tratamento.
Esses medicamentos são indicados para qualquer pessoa?

Apesar da popularidade, esses medicamentos não são indicados para qualquer pessoa que queira emagrecer alguns quilos.
De forma geral, o tratamento costuma ser recomendado para pessoas com obesidade, caracterizada por índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30. Em alguns casos, também pode ser indicado para indivíduos com IMC acima de 25 que tenham doenças associadas, como:
- diabetes tipo 2;
- hipertensão;
- colesterol alto;
- gordura no fígado;
- apneia do sono;
- resistência à insulina;
- problemas articulares relacionados ao excesso de peso.
Há ainda situações específicas, como insuficiência cardíaca associada à obesidade, em que o uso pode trazer benefícios importantes. A decisão, porém, deve sempre partir de avaliação médica individualizada.
O “boom” das canetas emagrecedoras

O uso desses medicamentos cresceu rapidamente nos últimos anos, inclusive entre pessoas sem obesidade ou diabetes. Um estudo internacional liderado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP e da Faculdade de Saúde Pública da USP, publicado na revista científica Obesity, mostra que os agonistas de GLP-1 deixaram de ser vistos apenas como tratamento médico e passaram a ser usados como ferramentas de otimização corporal.
Segundo os pesquisadores, existe hoje uma espécie de “economia moral da magreza”, em que emagrecer é associado à virtude, enquanto não perder peso passa a ser interpretado como fracasso pessoal.
Essa mudança de percepção ajudou a ampliar o uso indiscriminado das canetas emagrecedoras, muitas vezes motivado apenas por fins estéticos.
O consumo desenfreado também fortaleceu o mercado paralelo. Um levantamento recente da Anvisa mostrou que a importação de insumos farmacêuticos usados para manipulação dessas canetas atingiu números incompatíveis com o mercado nacional. Apenas no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos, quantidade suficiente para aproximadamente 20 milhões de doses.
Quais são os riscos do uso sem indicação?
Especialistas alertam que o uso indiscriminado de medicamentos como Ozempic e similares pode trazer consequências sérias à saúde, especialmente quando há automedicação ou compra de produtos sem origem confiável.
Produto falsificado ou sem controle sanitário
Ao comprar medicamentos pela internet ou redes sociais, não existe garantia sobre a procedência do produto. Ele pode ser falsificado, conter substâncias inadequadas, doses erradas ou até contaminação.
Isso aumenta o risco de efeitos adversos graves e compromete totalmente a segurança do tratamento.
Uso inadequado aumenta efeitos colaterais
Sem avaliação médica, muitas pessoas usam doses erradas ou fazem aplicações sem necessidade clínica. Isso eleva o risco de sintomas como:
- náuseas;
- vômitos;
- diarreia;
- constipação intestinal;
- desidratação;
- mal-estar intenso.
Em muitos casos, os sintomas melhoram quando o medicamento é introduzido gradualmente e acompanhado por um profissional. Mas, sem orientação, os efeitos podem se tornar mais intensos e perigosos.
Falta de acompanhamento pode mascarar complicações
Nem todo mundo pode usar esse tipo de medicamento. Algumas condições exigem cuidado especial, ajuste de dose ou monitoramento frequente.
Sem acompanhamento médico, sinais importantes podem passar despercebidos.
Especialistas alertam que dores intensas na parte superior do abdômen são um sinal de atenção. Embora rara, a pancreatite, que é a inflamação do pâncreas, é um efeito colateral previsto na bula dos agonistas de GLP-1 e pode evoluir rapidamente em situações graves.
Perda de massa muscular e relação ruim com a alimentação
Outro ponto de atenção é o emagrecimento muito rápido sem suporte nutricional adequado. Quando a perda de peso ocorre sem alimentação balanceada e prática de atividade física, existe maior risco de perda de massa magra.
Pesquisadores também apontam possíveis impactos emocionais e comportamentais, como:
- medo intenso de recuperar peso;
- dependência emocional do medicamento;
- piora da relação com a comida;
- obsessão pelo emagrecimento.
Uso off-label e uso estético são a mesma coisa?

É importante distinguir do uso sem indicação do chamado uso off-label, que acontece quando um medicamento é utilizado para finalidades não previstas originalmente na bula aprovada pelos órgãos reguladores. Essa prática pode ocorrer em contextos médicos específicos, desde que exista justificativa clínica, acompanhamento adequado e avaliação rigorosa dos riscos e benefícios.
O problema é quando o medicamento passa a ser utilizado apenas por pressão estética, sem necessidade médica.
Entidades como a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) publicaram uma carta aberta alertando para o aumento do uso dessas medicações sem receita e para fins exclusivamente estéticos.
As instituições defendem medidas mais rígidas para o controle da venda e reforçam que a automedicação pode colocar vidas em risco, além de dificultar o acesso de pacientes que realmente precisam do tratamento.
Este texto contém informações das publicações “Canetas “emagrecedoras” sem receita e sem Anvisa: por que isso é perigoso”, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo; “Especialistas alertam para riscos de uso indiscriminado de caneta para emagrecer”, da Agência Câmara de Notícias; “Canetas emagrecedoras: entenda quando o uso pode fazer mal à saúde”, da Agência Brasil; “The Uncharted Territory of the New Obesity Drugs in Users Without Obesity: A Sociomedical Perspective”, publicado na revista da The Obesity Society; Guia da Organização Mundial da Saúde sobre as terapias com análogos de GLP-1; “Carta Aberta: O uso de agonistas de GLP-1 para fins estéticos”, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica; “‘Canetas emagrecedoras’: conheça os riscos associados ao uso sem indicação”, do Hospital Einstein.

