Alimentação 30 de junho, 2016 Por Redação

Jean wyllys

Por Isabelle Lindote

Quando parecia que a fórmula para vencer o Big Brother Brasil era ser meio ingênuo, meio caipira, Jean Wyllys mostrou que um intelectual carismático também pode chegar lá. Jornalista, escritor e professor universitário, ele se orgulha de ser negro, baiano e homossexual, sem levantar bandeiras para as minorias, mas apenas sendo ele mesmo. Confira a entrevista exclusiva na qual ele mostra toda a sua alma feminina.

1) Por que você decidiu mandar uma fita para o Big Brother Brasil? Você já havia tentado antes da quinta edição?

Não havia tentado antes da quinta edição. São tantos os motivos que me levaram a me inscrever no BBB… O primeiro deles é que adoro cultura de massa ou aquilo que os elitistas chamam de “lixo cultural”. Eu era – e continuo sendo – um espectador, ainda que crítico, do BBB. Assisti às quatro edições anteriores à que participei e às duas últimas. Como professor universitário estudioso da comunicação de massa, sempre levei em conta o fato de que novas subjetividades, visões de mundo e posturas podem surgir do consumo de produtos da cultura de massa. Os meus amigos e colegas de academia sabem dessa minha relação com a indústria cultural; então, senti-me livre para me inscrever no programa. Pensei na ocasião: “como se comportaria um intelectual, um escritor e jornalista, um homem de comunicação na casa do BBB?”.

Outro motivo – talvez o principal – é que desejava ganhar visibilidade para negociar minha carreira literária em nível nacional. Até então, eu havia publicado um livro de contos, Aflitos, por conta de um prêmio literário (Prêmio Copene de Cultura e Arte – categoria Literatura), mas a tiragem foi pequena e os distribuidores mal colocaram o livro fora de Salvador. Tentei reeditá-lo por uma grande editora, mas só ouvi “não” ou “veremos depois” da boca dos editores. Aliás, nós que vivemos na periferia cultural do país – o Norte e o Nordeste – e não cedemos ao esquema das capitanias hereditárias nem ao dos apadrinhamentos só recebemos “não” do centro cultural. Pensei na ocasião: “para quem tem talento, formação, sabe qual o seu lugar no mundo, é honesto consigo e com os outros, mas, ao mesmo tempo, não tem sobrenome, não é filho nem parente de intelectuais da velha esquerda que hoje manda no país nem não conta com padrinhos poderosos, o BBB pode ser uma boa forma de entrar na concorrência”.

O último motivo é de ordem subjetiva. Minha vida estava correta de mais, sem graça, estava mais ou menos sentado no trono do apartamento esperando a morte chegar. Precisava de um rompante, algo impressionante que me “matasse de susto”. Pensava o tempo inteiro que tolice não é se inscrever no BBB, mas, sim, viver a vida sem aventura e sem risco. E eu poderia correr o risco porque, como já disse, sou honesto comigo e com os outros; posso entrar e sair de qualquer estrutura sem me arranhar.

Quando soube que estava selecionado, exultei, pois, no fundo, achava que meu perfil – um jornalista, escritor, professor universitário negro, baiano e gay – não seria aprovado.

2) Como era sua carreira de jornalista antes da participação no reality show?

Trabalhei um ano como repórter do TB2, o caderno de “cultura” da Tribuna da Bahia (a Tribuna da Bahia é um jornal historicamente de esquerda; por ele, passaram Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e Antônio Torres, que são os maiores escritores brasileiros saídos da Bahia). E trabalhei seis anos no Correio da Bahia – a princípio, como repórter de diversas editorias; depois, como repórter especial e chefe de reportagem e, por fim, como colunista. Comecei a trabalhar como repórter quando ainda estava no terceiro semestre da faculdade. Fui à Tribuna da Bahia em busca de um estágio e acabei contratado como profissional porque já tinha um bom texto e repertório cultural. Nesses sete anos em que exerci a profissão de jornalista, ganhei quatro prêmios de Melhor Reportagem da Associação Baiana de Imprensa e uma menção honrosa da Agência Nacional dos Direitos da Infância. Sempre fui um jornalista voltado para as questões sociais e da cultura. Em paralelo ao trabalho no jornal, eu coordenava o programa de educação para mídia e pela mídia da Organização do Auxílio Fraterno (OAF) – organização não-governamental que assiste crianças e adolescentes em situação de risco social. Depois do Mestrado e da publicação de meu primeiro livro, fui convidado a dar aulas e compor o colegiado do curso de Comunicação (Jornalismo e Rádio e TV) das Faculdades Jorge Amado. Lá, além de lecionar as disciplinas Jornalismo Impresso e Cultura Brasileira, criei e implantei, ao lado de minha amiga Amaranta César, o Núcleo de mídia e cidadania, onde os alunos aprendiam a fazer documentários e reportagens com temas sociais não tratados ou maltratados pela tv aberta e comercial.

3) Você disse no programa que tem alma feminina. Como definiria esta afirmação?

Olha, ter a alma feminina quer dizer estar em comunhão com tudo aquilo que a cultura e a história definem como sendo “próprios” do universo feminino: sensibilidade exacerbada; criatividade e inclinação para as artes e para estética; delicadeza ou dureza sem perder a ternura; relação maior com o sagrado; mais inclinação para a tolerância; mais malícia; maior preocupação com o tempo e mais disposição para experimentar outras sexualidades. Claro que essa “alma feminina”, tanto no caso dos gays quanto no das mulheres, não é produto da natureza, mas, sim, da cultura; logo, ela pode mudar ou desaparecer ao longo do tempo e do espaço. Ao longo de minha vida – e não pergunte por que – eu sempre convivi e me identifiquei mais com as mulheres. Até os 18 anos eu só namorava e transava com mulheres. Sempre me abri para minhas amigas e sempre fui o grande conselheiro delas. Quando seus romances acabavam, elas ligavam e diziam: “o importante é que eu tenho você, amigo”. Até hoje é assim. Sinto-me um privilegiado, um bendito entre as mulheres. E o que as mulheres mais gostam em mim é que sou aquele gay discreto, com alguma virilidade e que, ao fim da noite, pode “evoluir” com ela ou junto com ela (Risos). As mulheres gostam de mim porque faço a ponte entre seu universo e o universo masculino; porque, como homem, sei como ser seduzido por mulheres. E o contrário também acontece. Muitos amigos heterossexuais me consultam sobre como chegar em alguma mulher, o que dizer a ela e o que fazer na hora do sexo. Olha, que situação maravilhosa (risos)!

4) Durante o programa, você chegou a se questionar ou se arrepender de ter entrado?

Ah, o papo sobre mulheres estava tão bom… Mas, vamos lá: durante o programa eu pensei algumas vezes em desistir, em pedir para sair, porque o confinamento havia tirado meu sono e minha fome… Eu estava magro e emocionalmente esgotado. Os paredões desgastam a gente emocionalmente. Eu fui a seis paredões! Além disso, faltavam rádio, tv, jornais, relógio e papel e caneta para escrever. Sou cinéfilo e noveleiro, logo, sentia falta de ver novela e ir ao cinema. Mas, esses momentos de fraqueza eram breves. Quando eu interagia com as meninas e começava a “dar aula” ou cantar, a vontade de desistir ia embora. Antes de saber que estava selecionado, quando recebi o primeiro telefonema da produção, entrei em crise. Comecei a me perguntar: “Será que vale a pena trocar meu prestígio e o que conquistei por uma aventura?”. Depois de duas semanas, conclui: “A vida é tão breve, tudo agora mesmo pode estar por um segundo, então, por que me preocupar com essas amarras? Vou me jogar”. E tudo deu certo, graças a Deus e aos meus orixás!

5) Como foi participar do ‘Mais Você’ como repórter? Você ficou satisfeito com a experiência?

Quando eu saí do BBB, com a popularidade em alta, querido em todo Brasil, a Globo não quis me deixar solto. Nada mais justo, já que foi em seu reality show que me revelei. A emissora, então, ofereceu-me a oportunidade de trabalhar na Turma do Didi. O objetivo era explorar a persona do professor carismático e boa praça que eu havia mostrado no BBB. Mas eu não aceitei. Não sou humorista nem ator, logo, não poderia aceitar aquele convite, apesar de admirar e respeitar Renato Aragão. Fiz duas participações como Jean Wyllys mesmo e pronto. Então, a emissora, para não me deixar solto, teve que me colocar em um programa onde eu fizesse aquilo que sei fazer (reportagens, roteiros) e onde meu maior público (as mulheres) estivesse. Assim, fui parar no Mais Você, o programa da Ana Maria Braga. Em dois anos, fiz excelentes matérias sobre diferentes aspectos da cultura brasileira; estreitei minha relação com as câmeras e trabalhei com excelentes profissionais, como a diretora de jornalismo do programa, Vivi de Marco, as editoras Malice e Tetê e o diretor Cacá Silveira. Mas, apesar dos elogios por parte da equipe e da boa resposta do público, as matérias – sabe-se lá por que – iam ao ar em intervalos muito grande; a ponto de as pessoas me pararem na rua e dizerem: “Você tem certeza que está no Mais Você? Eu não te vejo nunca. Eu quero te ver!”. Aquilo foi me entristecendo. Como sou uma pessoa comprometida com a felicidade, decidi que não renovaria meu contrato este ano. Na seqüência, recebi um convite de Ana Fadigas, editora da G Magazine e G On-line, para integrar a equipe de uma tv para a net que ela está estruturando. Era tudo que eu esperava! Pedi demissão da Globo, a quem tenho muito a agradecer, e me joguei de cabeça nesse projeto onde as pessoas enxergam e valorizam meu talento, não se sentem ameaçadas por mim nem querem, estrategicamente, me prender no estereótipo de ex-BBB.

6) Após sair da casa, você lançou o livro ‘Ainda lembro’, falando sobre sua experiência no BBB5, mas não foi seu primeiro livro. Como anda sua relação com o mundo das letras?

Meu primeiro livro se chama Aflitos e foi publicado em 2001, pela editora Casa de Palavras da Fundação Casa de Jorge Amado. É um livro de contos que retratam o lado mais urbano; violento; solitário e sombrio de Salvador. Com ele, ganhei um importante prêmio literário baiano e fui considerado uma revelação pela crítica local. Meu segundo livro, Ainda lembro, foi lançado após minha saída do BBB. É um livro de crônicas, bacana, que vendeu bastante e agradou a diferentes públicos. Ele é leve e faz intertextualidade principalmente com letras de músicas como forma de seduzir um número maior de pessoas para o universo da Literatura. Mas alguns críticos não entenderam isso (ou não quiseram entender; afinal, tratava-se do livro de um “ex-BBB”). Deveria ter publicado meu terceiro livro em 2006, mas optei por esperar mais um tempo; até que se enfraquecer o interesse na “celebridade” e na persona de vencedor do BBB; até que se cristalize um interesse em meu trabalho. Enquanto isso, escrevo minhas crônicas na G Magazine e publicou textos sobre assuntos diversos em meu blog ( www.jeanwyllys.com.br). Até o final do ano, é provável que meu terceiro livro esteja nas melhores casas do ramo.

7) Em seu site, você mantém um blog e contato com seus fãs. Como é essa relação? A fama te assustou ou atrapalhou de alguma forma?

A relação com os fãs é ótima. Gosto de pessoas e sempre gostei. Recebo uma média diária de trezentos e-mails com os mais variados assuntos. Já sei distinguir os meus fãs dos fãs do BBB e dos fãs de qualquer pessoa que aparece na tevê. Os meus fãs têm mais meu respeito e atenção porque entram em contato não só para me elogiar, mas para debater minhas idéias públicas e até criticar algumas posturas. Isso é maravilhoso! Os fãs do BBB tendem a achar que todos os participantes do programa são farinha do mesmo saco ou bananas do mesmo cacho, e isso não é verdade; são, em geral, pessoas que desenvolvem uma relação histérica, quase doentia, com o programa e seus participantes e que, na verdade, gostariam de ser mais um participante; eu costumo não dar muita atenção a essa gente porque, para ela, tanto faz estar falando com Jean, com Emílio, com a Leka ou com a íris e o Alemão. Os fãs de qualquer pessoa que aparece na tevê são os que merecem menos atenção porque só sabem que você é famoso e nada mais; às vezes, não sabem nem o nome; já me perguntaram até se eu estava na novela das seis! Pode? Mas eu gostaria de acrescentar que a relação com os meus fãs é boa porque não me comporto como “celebridade”; aliás, não me sinto celebridade. Não gosto desse universo de falso glamour e holofotes. Posar para fotos só faz sentido pra mim se for para divulgar algum trabalho. Nesses dois anos, não fiz uma “presença vip”. Faço, sim, palestras e apresento eventos porque tenho boa dicção e sei interagir com a platéia. A fama pela fama não me interessa, assim como não me interessam as pessoas que convertem em notícia a última troca de parceiro de cama ou a mudança de penteado.

8) Quais outros projetos profissionais você tem hoje em dia?

Estou envolvido na criação da GTV – uma programação de tv para Internet e, depois, para o sistema a cabo. A GTV será do interesse de todos, mas, sobretudo, da comunidade GLS. Estou trabalhando na criação e roteiros dos programas. Haverá jornalísticos, reality shows, séries e etc. Ela se estruturará com o tempo, mas a idéia é que os primeiros programas estréiem em junho próximo. Um deles é voltado para o público feminino. Além da GTV, estou em fase de produção de um documentário sobre transformistas. E, se tudo der certo, vou acabar de escrever meu novo livro.

9) Qual recado você deixaria para nossas leitoras?

Lembrem-se que vocês e todas as outras mulheres têm uma responsabilidade mítica, pois a mulher (Eva) é arte-final de um rascunho que é o homem (Adão). Os filhos são das mulheres; logo, estão em vossas mãos está a tarefa de fazer uma humanidade melhor dos que a que já existe. Se quiserem me ler, é só acessar www.jeanwyllys.com.br.

Beijos!

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