Entender o que desperta a vontade de comer pode ajudar a construir uma relação mais saudável com a comida
Em um momento em que tantas pessoas buscam formas de controlar o apetite, a endocrinologista Lorena Lima Amato sugere um outro caminho. “Talvez seja melhor falar em regular o apetite do que controlá-lo”, afirma em entrevista ao Tá Saudável.
A discussão é especialmente relevante em uma época em que o apetite costuma ser tratado como um obstáculo para emagrecer ou manter uma alimentação equilibrada. Isso porque sentir vontade de comer é parte de um sistema fisiológico fundamental para a sobrevivência. Além das necessidades energéticas do organismo, fatores como cheiro, sabor, memórias, emoções e disponibilidade dos alimentos também participam das decisões sobre o que, quando e quanto comemos.
Qual é a importância do apetite?

O apetite não é, por si só, algo que precisa ser eliminado ou combatido. Ele ajuda a regular a ingestão de alimentos e, consequentemente, participa da obtenção de energia e nutrientes importantes, como proteínas, vitaminas e minerais.
Segundo Lorena, o apetite também participa da adaptação do organismo a situações de maior demanda energética, como períodos de crescimento, prática de atividade física e recuperação de doenças.
Uma redução persistente do apetite, por exemplo, pode trazer consequências para a saúde. Quando a ingestão alimentar se torna insuficiente, podem ocorrer perda de peso involuntária, redução da massa muscular, deficiências nutricionais e fragilidade.
A endocrinologista explica que uma diminuição temporária pode acontecer durante uma infecção ou em períodos de estresse. Mas a perda persistente do apetite merece investigação, já que pode estar relacionada a doenças gastrointestinais, inflamatórias, infecciosas, endocrinológicas, neurológicas, psiquiátricas e neoplasias, além de ser um possível efeito de medicamentos.
Fome ou vontade de comer?

Sensação que favorece o início da alimentação, a fome costuma estar relacionada à necessidade de energia e a sinais fisiológicos do organismo.
Já o apetite é um conceito mais amplo. Ele representa o desejo ou a motivação para comer, e pode aparecer mesmo quando não há uma necessidade energética imediata.
É o que pode acontecer, por exemplo, quando uma pessoa acabou de fazer uma refeição, mas sente vontade de comer uma sobremesa de que gosta ao vê-la ou sentir seu cheiro.
Essa diferença ajuda a entender por que nem toda vontade de comer significa que o organismo está necessariamente precisando de mais energia naquele momento.
O que acontece no corpo quando sentimos vontade de comer?

O apetite é resultado de uma comunicação constante entre diferentes partes do corpo e do cérebro.
A endocrinologista explica que o hipotálamo é um dos principais centros envolvidos nessa regulação. O intestino e o tecido adiposo também são importantes.
De forma bem simplificada, existem sistemas que favorecem a ingestão alimentar e outros associados à saciedade e à redução da ingestão. Vários hormônios são produzidos e liberados pelo organismo nesses momentos diferentes.
A grelina é um hormônio produzido principalmente pelo estômago que tende a estimular a alimentação, enquanto, depois das refeições, aumentam sinais como GLP-1, PYY e CCK, relacionados à saciação e à saciedade.
A leptina, produzida pelo tecido adiposo, fornece ao cérebro informações mais duradouras sobre as reservas de energia do organismo. Insulina, nutrientes circulantes, nervo vago e tronco cerebral também participam desse processo.
“Além desse sistema chamado homeostático, existe o sistema de recompensa. Paladar, cheiro, lembranças, contexto social e alimentos altamente prazerosos podem produzir vontade de comer independentemente de uma necessidade energética imediata.”
O posicionamento da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade, também afirma que o consumo alimentar envolve a integração entre mecanismos relacionados à manutenção do equilíbrio energético, circuitos de recompensa e funções cognitivas.
Por isso, podemos sentir vontade de comer simplesmente porque algo é saboroso, tem um cheiro agradável ou desperta uma memória positiva.
Por que algumas pessoas parecem ter mais apetite do que outras?

Há diferenças biológicas reais que variam de pessoa para pessoa:
- genética;
- composição corporal;
- sensibilidade à leptina e à insulina;
- resposta cerebral aos alimentos;
- secreção de hormônios gastrointestinais;
- velocidade de esvaziamento gástrico;
- circuitos de recompensa.
Além disso, o organismo pode reagir à perda de peso aumentando sinais que favorecem a fome e reduzindo alguns mecanismos relacionados à saciedade.
Na prática, isso significa que duas pessoas expostas ao mesmo ambiente alimentar podem experimentar níveis bastante diferentes de fome e de esforço para moderar a ingestão.
“O apetite não é simplesmente uma questão de ‘força de vontade’”, afirma Lorena.
Sono, estresse e ambiente também podem mexer com o apetite

O comportamento e o ambiente têm grande influência sobre a vontade de comer.
Uma pessoa que passou anos associando assistir à televisão ao consumo de determinado alimento, por exemplo, pode sentir vontade de comer ao sentar no sofá, mesmo sem fome fisiológica naquele momento.
Sono, estresse, disponibilidade dos alimentos, tamanho das porções, estímulos visuais, publicidade, velocidade das refeições e alimentação distraída também podem interferir.
A Abeso destaca que as escolhas alimentares são influenciadas por mecanismos fisiológicos, mas também por aspectos sensoriais e pelo valor de recompensa associado à comida. Sabor, textura e aparência podem influenciar a experiência de comer e ajudar a explicar por que o conhecimento nutricional, sozinho, nem sempre é suficiente para mudar hábitos.
Saber o que é considerado uma alimentação saudável não elimina automaticamente outros fatores que influenciam nossas escolhas.
O que pode aumentar ou diminuir a vontade de comer?

Diversos fatores podem favorecer um aumento do apetite:
- privação de sono;
- restrições alimentares muito intensas;
- longos períodos sem comer;
- perda significativa de peso;
- estresse em algumas pessoas;
- grande disponibilidade de alimentos altamente palatáveis.
Por outro lado, algumas características das refeições tendem a favorecer a saciedade:
- refeições com boa quantidade de proteínas e fibras;
- alimentos menos processados;
- maior volume alimentar com menor densidade energética;
- alimentos que exigem mastigação.
Alguns medicamentos também podem interferir diretamente nos mecanismos envolvidos na fome e na saciedade.
Um grande exemplo são os medicamentos que atuam em receptores relacionados ao GLP-1, que ficaram conhecidos como “canetas emagrecedoras”. Esses tratamentos podem modificar biologicamente a intensidade da fome e a ingestão alimentar.
Isso não significa, porém, que exista uma fórmula única capaz de “desligar” o apetite.
O objetivo não precisa ser sentir o mínimo possível de fome, mas criar condições que favoreçam uma relação mais equilibrada com os sinais do próprio corpo.
A Abeso também recomenda que mudanças no comportamento alimentar sejam construídas de forma gradual e sustentável. Estratégias de educação nutricional podem ajudar, mas o processo não deve ignorar fatores como prazer, palatabilidade, contexto e hábitos adquiridos ao longo da vida.
Como ter uma relação mais saudável com o próprio apetite?

Para a endocrinologista, uma relação saudável começa por não tratar fome e saciedade como inimigas.
É normal sentir fome antes de comer. E também pode ser normal, eventualmente, comer porque determinado alimento é prazeroso, mesmo sem uma grande fome fisiológica.
A ideia é desenvolver maior capacidade de perceber esses sinais e prestar atenção suficiente à refeição para reconhecer a satisfação. Isso não significa ignorar permanentemente a fome nem responder imediatamente a toda vontade de comer.
“O apetite não é um defeito que precisa ser eliminado. É um sistema biológico que precisa conversar adequadamente com nossos hábitos, nosso ambiente e nossas necessidades”, completa a especialista.
Referências: entrevista com a endocrinologista Lorena Lima Amato (CRM-SP 141594/ RQE 50079) em ago/2026; Posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade: Departamento de Nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. 2022.
