Alimentação 05 de novembro, 2026 • Por Gabriela Brito

Nem mocinho, nem vilão: especialistas explicam quando vale a pena usar adoçante

Adoçante faz bem ou mal

Natural ou artificial, o adoçante não é indispensável para uma alimentação saudável, mas pode ser muito útil

Adoçantes são frequentemente apresentados como alternativas mais saudáveis ao açúcar, especialmente por quem deseja emagrecer, controlar as calorias ou manter a glicemia sob controle. Mas será que substituir o açúcar pelo adoçante é sempre uma escolha melhor? A resposta depende do contexto alimentar, das necessidades individuais e do tipo de edulcorante utilizado.

Segundo especialistas em nutrição, os adoçantes não precisam ser tratados como vilões, mas também não são indispensáveis para uma alimentação saudável. Embora possam ajudar a reduzir o consumo de açúcar em determinadas situações, a simples substituição de um ingrediente por outro não garante uma melhora na qualidade da alimentação.

É melhor adoçante ou açúcar?

diferença entre açúcar e adoçante
(Crédito: Mark Youso/ Pexels)

Açúcar e adoçantes têm características e funções diferentes. Enquanto o açúcar fornece sabor doce e energia, através de calorias, os adoçantes são utilizados principalmente para conferir sabor doce com menor quantidade de calorias ou sem calorias, dependendo da substância.

Para a nutricionista Daniela Lopes Gomes, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Pará e coordenadora do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), é importante não confundir a redução do açúcar com uma melhora automática da alimentação.

“É importante compreender que reduzir o açúcar pode trazer benefícios à saúde, mas isso não significa que sua substituição por adoçantes seja sempre necessária ou represente sempre uma melhoria na qualidade da alimentação de maneira isolada”, explica.

A nutricionista Márcia Terra, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), também ressalta que a avaliação deve considerar a alimentação como um todo.

“Um alimento isolado não define a qualidade da dieta de ninguém, então não dá para dizer que um é mais saudável que o outro. O açúcar tem lugar na dieta, com moderação, e o adoçante é uma alternativa ao açúcar”, afirma.

Portanto, quem não tem diabetes ou necessidade específica de controlar a ingestão de calorias não precisa necessariamente consumir adoçantes a fim de uma alimentação mais saudável. Uma estratégia importante é reduzir gradualmente a preferência por sabores muito doces.

Adoçante natural é melhor que artificial?

Adoçante natural é melhor que artificial
(Crédito: Brett Jordan/ Unsplash)

A classificação entre natural e artificial não determina, por si só, se um adoçante é mais saudável ou seguro. O mais importante é sua composição, a quantidade consumida e a tolerância individual.

A estévia, por exemplo, é obtida de uma planta, mas passa por processos industriais de extração e purificação. Já o eritritol é produzido por fermentação, enquanto o xilitol e o sorbitol também passam por processos industriais.

“Ser natural ou artificial não diz nada sobre ser mais ou menos saudável, nem sobre a segurança ou a qualidade do produto. Todos passam pela mesma avaliação de segurança. Aliás, ‘natural’ aqui é mais marketing”, avisa Márcia.

A especialista também explica que é justamente a passagem por processos industriais que garante a pureza e o padrão do produto.

Adoçante ou edulcorante?

Adoçante ou edulcorante
(Crédito: Magnific/ Magnific)

Antes de continuarmos, vale explicar o termo “edulcorante”. 

Quando a gente fala em adoçante em uma conversa, popularmente, pode estar se referindo tanto aquele produto de mesa, que o próprio consumidor pode adicionar a uma bebida, quanto aos ingredientes adicionados em alimentos industrializados.

Mas o termo mais correto para esse aditivo é edulcorante, que é o usado pela indústria e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por exemplo.

Adoçantes podem fazer mal à saúde?

Adoçantes podem fazer mal à saúde
(Crédito: Pavel Danilyuk/ Pexels)

Os edulcorantes autorizados pela Anvisa passam por avaliações de segurança e têm condições e limites específicos de utilização.

Entre os utilizados em alimentos estão aspartame, sucralose, sacarina, acessulfame de potássio, estévia, xilitol, eritritol e sorbitol. Eles apresentam características diferentes e não devem ser considerados equivalentes.

Segundo Daniela, embora existam pesquisas sobre possíveis associações entre adoçantes, alterações da microbiota intestinal, metabolismo da glicose e doenças crônicas, os resultados ainda são heterogêneos.

“Não existem evidências suficientes para afirmar que os adoçantes artificiais aprovados causam danos à saúde quando consumidos dentro dos limites recomendados, mas isso também não significa que seu consumo deva ser estimulado indiscriminadamente”, pontua.

Cada substância possui uma Ingestão Diária Aceitável (IDA), que corresponde à quantidade que pode ser consumida diariamente, ao longo da vida, sem representar risco apreciável à saúde, de acordo com as avaliações toxicológicas disponíveis.

A IDA é expressa em miligramas por quilo de peso corporal por dia e varia conforme o edulcorante. Ela representa uma margem de segurança, não uma meta de consumo.

Márcia explica que, para estabelecer esse parâmetro, os pesquisadores consideram doses que não provocaram efeitos adversos nos estudos e aplicam uma margem adicional de segurança.

Na prática, a recomendação é utilizar apenas a quantidade necessária para adoçar, sem tentar atingir o limite diário estabelecido.

Por que alguns adoçantes provocam desconforto intestinal?

desconforto gastrointestinal depois de adoçante
(Crédito: Kindel Media/ Pexels)

Gases, distensão abdominal, cólicas e diarreia podem ocorrer após o consumo de determinados adoçantes, especialmente os chamados polióis.

Esse grupo inclui substâncias como sorbitol, manitol, maltitol, xilitol e lactitol. Como parte dessas substâncias não é absorvida no intestino delgado, pode chegar ao intestino grosso, onde atrai água e é fermentada pelas bactérias intestinais.

O resultado pode ser um efeito laxativo, principalmente quando o consumo é elevado.

A tolerância varia de pessoa para pessoa. Por isso, quem tem intestino sensível ou síndrome do intestino irritável pode precisar limitar determinados polióis.

Esse efeito não está relacionado simplesmente à classificação entre adoçantes naturais e artificiais, mas às características específicas de cada substância.

Quando vale a pena usar adoçante?

quando usar adoçante?
(Crédito: Magnific/ Magnific)

O uso pode ser considerado por pessoas que precisam ou desejam reduzir o consumo de açúcar, especialmente aquelas com diabetes ou que apresentam dificuldade para diminuir a quantidade de açúcar na alimentação.

Para quem tem diabetes, os adoçantes não calóricos podem ajudar a substituir o açúcar em bebidas e preparações, reduzindo a ingestão de carboidratos e o impacto glicêmico daquela refeição.

Daniela ressalta, porém, que eles não são obrigatórios nem mesmo para todas as pessoas com diabetes. A indicação deve considerar os hábitos alimentares, as condições clínicas e os objetivos individuais.

“Os adoçantes não são indispensáveis para uma alimentação saudável e nem precisam ser utilizados por todas as pessoas com diabetes, mas podem funcionar como uma estratégia de transição, permitindo a redução do açúcar enquanto se trabalha gradualmente a adaptação do paladar a sabores menos doces”, explica.

Márcia também considera que eles podem ser úteis para quem deseja reduzir o açúcar ou controlar a ingestão de calorias sem abrir mão do sabor doce.

O objetivo, entretanto, deve ser diminuir gradualmente a preferência por sabores muito doces, valorizando o sabor natural dos alimentos.

Quais cuidados tomar ao escolher um alimento com adoçante?

qual adoçante usar?
(Crédito: sadiq abdulmalik/ Unsplash)

A presença de adoçante em um alimento não significa que ele seja automaticamente saudável ou adequado para todas as pessoas.

Um chocolate sem adição de açúcar, por exemplo, pode apresentar quantidades relevantes de gorduras e calorias. Da mesma forma, biscoitos sem açúcar podem conter farinhas refinadas e amidos que influenciam a glicemia.

Por isso, é importante observar:

  • Lista de ingredientes: identifica quais edulcorantes e outros componentes fazem parte da composição.
  • Carboidratos e calorias: produtos sem açúcar podem conter outros ingredientes que fornecem energia e influenciam a glicemia.
  • Gorduras e sódio: também devem ser considerados na avaliação nutricional.
  • Tolerância individual: alguns edulcorantes, especialmente os polióis, podem provocar desconforto gastrointestinal.

Existem ainda situações que exigem cuidados específicos. Pessoas com fenilcetonúria devem evitar o aspartame, pois ele contém fenilalanina. Por isso, produtos que utilizam essa substância devem apresentar a advertência “Contém fenilalanina” no rótulo.

A escolha do adoçante deve considerar as necessidades individuais, e não apenas a promessa de ser natural, zero açúcar ou zero calorias.

No fim, a melhor estratégia não é simplesmente trocar o açúcar pelo adoçante, mas construir uma alimentação equilibrada, reduzir o consumo excessivo de produtos adoçados e desenvolver uma relação mais natural com o sabor dos alimentos.

adoçante e alimentação saudável
(Crédito: Bruno Dias/ Unsplash)

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