Em meio ao aumento dos casos de câncer colorretal em jovens, é importante não só buscar aconselhamento médico para rastreamento personalizado, mas também observar as fezes – hábito visto por muitos como estranho
O ato de observar as fezes antes de dar descarga pode soar estranho para alguns, mas ele é, na realidade, bastante útil. Isso porque doenças como o câncer colorretal – cuja ocorrência em pessoas jovens tem crescido – pode dar sinais notáveis no próprio vaso sanitário.
Entenda abaixo como o cenário do câncer colorretal em jovens tem mudado no Brasil e no mundo e de que forma essa doença afeta as fezes, gerando alertas para investigação mesmo fora da idade típica de rastreamento para a doença.
Câncer colorretal: ocorrência em jovens, sintomas visíveis e mais

Até meados dos anos 1990, a população com 65 anos ou mais concentrava a maior parte dos casos de câncer colorretal com folga, e 27% dos diagnósticos aconteciam antes disso, segundo a American Cancer Society (ACS). Nas décadas seguintes, porém, esse cenário começou a mudar de forma silenciosa.
Hoje, ainda segundo a ACS, a faixa de 65 anos ou mais ainda concentra a maioria dos diagnósticos, mas o percentual de casos diagnosticados antes dessa idade subiu para 45%. Além disso, dados da mesma instituição coletados entre 2013 e 2022 apontam um crescimento de 3% ao ano na incidência da doença entre adultos de 20 a 49 anos.
Ainda que especialistas estejam buscando explicações para essa transformação, ainda não existe uma causa específica determinada. Nesse cenário, uma das suposições tem relação com a colibactina, toxina liberada por algumas bactérias do intestino que pode causar mutações no DNA das células e, assim, levar ao câncer.
Em um estudo publicado no periódico científico “Nature” em 2025, essas mutações se mostraram mais comuns em pessoas que tiveram câncer antes dos 50 anos – mas essa associação ainda não teve a relação direta de causa e efeito comprovada.
Rastreamento de câncer colorretal em jovens

Apesar de ainda não saberem o que exatamente está ocasionando esse aumento dos casos de câncer colorretal em pessoas mais jovens, especialistas já têm se mobilizado para lidar com as consequências da transformação na incidência da doença. Entre os anos 80 e 90, por exemplo, o rastreamento da doença começava aos 50 anos, e a colonoscopia ainda não fazia parte desse processo – mas, hoje, o protocolo é diferente.
De acordo com o médico Gerônimo Jr., presidente da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) e especialista em trato gastrointestinal, as atuais recomendações incluem:
- Início do rastreamento aos 45 anos, mesmo em pessoas com risco habitual de desenvolver a doença (ou seja, com poucos fatores de risco que aumentam as chances de tê-la);
- Intervalo de 10 anos entre colonoscopias quando o resultado é normal e o exame é feito de forma completa, com preparo adequado;
- Teste imunoquímico fecal anual também a partir dos 45 anos, com necessidade de colonoscopia complementar quando o resultado é positivo.
Além disso, ele afirma que, embora exista um aumento dos casos em pessoas com menos de 45 anos, ainda não há evidências suficientes para recomendar colonoscopia de rotina antes dessa idade. Por isso, pessoas com fatores de risco como histórico familiar da doença, síndromes hereditárias e doenças inflamatórias intestinais devem buscar aconselhamento médico mesmo antes de chegar aos 45 anos para elaborar uma estratégia de rastreio personalizada.
Aqui, também é importante frisar que rastreamento não é o mesmo que investigação diagnóstica. Segundo o especialista, quando uma pessoa apresenta sintomas suspeitos de câncer colorretal, ela deve ser investigada mesmo tendo menos de 45 anos, pois se trata de uma urgência.
Sintomas de câncer colorretal que aparecem nas fezes

O patologista frisa que o câncer colorretal pode se desenvolver silenciosamente, inclusive causando sintomas invisíveis – como presença de sangue nas fezes de forma imperceptível a olho nu. Ainda assim, é importante sempre olhar as fezes, pois, quando causa sinais, a doença se manifesta ali.
Algo que muita gente não sabe, por exemplo, é que, com a presença de um tumor no intestino, as fezes podem ficar mais finas. Não se trata de algo que acontece uma única vez (o que pode ocorrer em um intestino saudável pontualmente), mas sim de uma alteração consistente, com fezes chegando até ao formato de fita ou lápis. Isso acontece porque o câncer estreita a passagem delas, transformando-as.
Conforme explicam autoridades de saúde, é importante buscar avaliação médica ao notar:
- Presença de sangue nas fezes, seja ele vermelho-vivo ou mais escuro;
- Mudanças persistentes no hábito intestinal, como diarreia, constipação ou alternância constante entre ambas;
- Fezes se tornando mais finas de forma persistente;
- Anemia e perda de peso inexplicada;
- Dor abdominal persistente;
- Presença de mais muco que o habitual nas fezes;
- Cansaço persistente.
Aqui, o presidente da SBP explica que nenhum desses sintomas de forma isolada indica o diagnóstico de câncer. Eles indicam apenas a necessidade de uma investigação mais profunda, visto que sinais assim também podem estar ligados a outras condições, como hemorroidas, fissuras, doença inflamatório intestinal, infecção alimentar e consumo de certos alimentos ou uso de determinados remédios.
