Usar insulina para ganhar massa muscular tem se tornado uma tendência nas academias, mas pode trazer riscos irreparáveis e até levar a óbito
Especialmente no âmbito do fisiculturismo, o uso de insulina como facilitador do ganho muscular é uma tendência. Isso acontece porque o hormônio promove a síntese de proteínas – os “tijolos” dos músculos – e impede a degradação delas, gerando alto ganho de massa magra durável. Sendo assim, o cenário de usar insulina para ganhar massa muscular parece animador, mas especialistas alertam que a prática traz riscos gravíssimos.
O que a insulina faz nos músculos

Conforme explica a médica Cristina Bellotti Formiga Bueno, endocrinologista e diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional de São Paulo (SBEM-SP), a insulina é um hormônio que regula os níveis de glicose no sangue. Em pessoas que têm diabetes, isso é benéfico porque o organismo delas não produz o hormônio naturalmente – e o excesso de glicose que isso ocasiona é prejudicial.
Ela explica que, naturalmente, a insulina é um hormônio anabolizante. Isso significa que, tanto em quem precisa quanto em quem não precisa dele, a substância age sobre a síntese e a degradação de proteínas, promovendo recuperação ou ganho de massa muscular. “Ela faz com que o músculo seja criado mais facilmente, e impede que se perca esse músculo”, pontua a especialista.
No caso de pessoas que não são diabéticas, esse efeito é puramente estético, mas não acontece sem inúmeros riscos e, portanto, é altamente contraindicado.
Usar insulina para ganhar massa muscular é seguro?

De acordo com a médica da SBEM-SP, quando uma pessoa que tem a produção normal de insulina pelo pâncreas suplementa isso com o uso de injeções do hormônio, a concentração da substância no organismo se torna excessiva.
Em pessoas saudáveis, o próprio corpo sabe quando produzir mais ou menos desse hormônio para manter os níveis ideais de glicose no sangue. Ao injetar mais desse hormônio, esse controle não existe mais, e pode gerar quadros de hipoglicemia.
“A gente dá insulina ao paciente diabético para retirar da circulação parte da glicose, para que ele não entre em um quadro de intoxicação por glicose, a cetoacidose. No indivíduo que faz uso irregular, sem deficiência de insulina, o hormônio vai pegar toda a glicose da circulação e colocar para dentro das células. Nesse cenário, falta glicose no coração, no cérebro e em outros órgãos, podendo evoluir para morte”, declara.

Além disso, o cenário é especialmente ruim para pessoas que têm, por exemplo, condições cardíacas pré-existentes, conhecidas pelo usuário ou não. Segundo o médico cardiologista Luiz Ritt, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia da Bahia (SBC/BA), condições genéticas potencialmente silenciosas, como a miocardite hipertrófica, já aumentam o risco de morte súbita. No contexto do esporte de alto rendimento, o risco sobe ainda mais – e, com o uso da insulina como anabolizante, se multiplica.
“O uso indevido da insulina pode levar a queda brusca da glicemia, com efeitos subsequentes ao músculo cardíaco, sendo uma das causas potenciais de parada cardíaca”, informa o médico – e tanto ele quanto a endocrinologista contraindicam fortemente a utilização de insulina para ganhar massa muscular.
