Popular entre quem pratica musculação e esportes de alta intensidade, a técnica promete aliviar dores e melhorar a mobilidade
A liberação miofascial ganhou espaço no universo fitness como uma verdadeira aliada na preparação física e no alívio de tensões musculares. O que muita gente não sabe é que nem sempre o procedimento — que pode ser realizado manualmente com a ajuda de acessórios ou através de fisioterapeuta — é indicado para quem treina pesado.
Para explicar qual é a frequência ideal da técnica, quando ela realmente se faz necessária e quais cuidados devem ser tomados, o Tá Saudável conversou com a Dra. Maria Amélia Reginato Von Oertzen Toledo (Crefito 105.483/F), fisioterapeuta com 20 anos de experiência profissional, formação em andamento em Osteopatia pela Escuela de Osteopatía de Madrid e fundadora da MA Clínica Boutique de Fisioterapia e Bem-Estar, em São Paulo.
O que é a liberação miofascial: como ela funciona
A liberação miofascial é uma técnica que aplica pressão em pontos de tensão do corpo e age na fáscia, tecido conjuntivo que cobre e envolve os músculos com o objetivo de aliviar dores, diminuir tensões e melhorar a mobilidade do corpo. No entanto, diferente do que muitos imaginam, o benefício da técnica não se deve a um “descolamento” mecânico do tecido.
“A liberação miofascial é um conjunto de técnicas manuais ou de automassagem aplicadas sobre músculos e tecidos fasciais com o objetivo de melhorar a mobilidade, reduzir a sensação de tensão e modular desconfortos musculares”, reforça a Dra. Maria Amélia, que deu mais detalhes de como a liberação miofascial funciona no corpo.

“Hoje sabemos que seus efeitos não acontecem simplesmente porque estamos ‘soltando’ ou ‘quebrando’ a fáscia. Existe uma importante resposta neurossensorial: os estímulos mecânicos aplicados aos tecidos são percebidos pelo sistema nervoso e podem modificar temporariamente a percepção de dor, tensão e amplitude de movimento”.
“Por isso, é uma ferramenta que pode ser muito útil quando bem indicada, mas deve fazer parte de uma abordagem mais ampla”, alerta. O fisioterapeuta geralmente usa os dedos, as mãos ou os cotovelos para apertar e trabalhar as áreas mais rígidas e encurtadas através dos chamados pontos gatilho identificados em sessão.
Para quem é indicada a liberação miofascial?
Apesar de ser extremamente popular dentro e fora das cademias, nem todos os praticantes de musculação ou atletas precisam aderir à prática na rotina diária como uma obrigação. A indicação, segundo a Dra. Maria Amélia, depende do estado do corpo e dos objetivos de cada um.
“Não é uma técnica obrigatória para quem treina pesado. Ela pode ser utilizada tanto por quem apresenta sensação de rigidez, desconforto ou alguma limitação de mobilidade quanto, em alguns casos, como parte da preparação ou recuperação do treino”, analisa a fisioterapeuta.
“O mais importante é existir um objetivo. Não faz sentido realizar liberação miofascial de maneira indiscriminada simplesmente porque a pessoa treinou. Em atletas ou praticantes de musculação, precisamos entender se há realmente uma necessidade e qual resultado estamos buscando com aquela intervenção”.

Quem não deve fazer liberação miofascial
Antes de recorrer ao rolo de liberação ou agendar uma sessão profissional, é essencial estar atento aos sinais do corpo e a condições médicas prévias. De acordo com a Dra. Maria Amélia, a aplicação inadequada pode agravar quadros inflamatórios ou mascarar lesões mais graves.
“É preciso cautela principalmente em situações de trauma agudo, suspeita de fratura, lesões de pele, infecções, hematomas importantes ou processos inflamatórios agudos”.
“Pessoas com alterações vasculares, risco aumentado de sangramento, uso de anticoagulantes ou determinadas condições clínicas também precisam de avaliação individual antes de técnicas mais intensas”, endossa a especialista.
“Além disso, uma dor sem diagnóstico ou acompanhada de sinais como perda de força, alteração de sensibilidade ou outros sintomas neurológicos não deve simplesmente ser tratada como uma ‘tensão muscular’. Nesses casos, é importante investigar a causa”.
Com qual frequência a liberação miofascial deve ser realizada?
Não existe uma regra fixa ou um calendário padrão que sirva para todos. A frequência ideal varia de acordo com o ritmo de treinos de cada pessoa e com a intensidade da técnica aplicada.
“Não existe uma frequência universal. Ela depende do volume e da intensidade dos treinos, da modalidade praticada, dos sintomas e, principalmente, do objetivo da técnica”, avalia a fisioterapeuta. “Uma automassagem leve pode ser utilizada com maior frequência, enquanto técnicas manuais mais intensas não precisam ser realizadas diariamente”.

“Mais importante do que estabelecer “duas ou três vezes por semana” é observar a resposta individual. Se a pessoa sente que precisa fazer uma liberação intensa todos os dias para conseguir treinar sem dor, provavelmente é necessário investigar por que essa dor ou tensão está sendo tão recorrente”.
Liberação miofascial: antes ou depois do treino
O momento ideal para realizar a técnica depende diretamente da meta do atleta ou praticante naquele dia. As abordagens e os efeitos variam consideravelmente antes e depois da atividade física.
“Pode ser utilizada nos dois momentos, mas com objetivos e estratégias diferentes. Antes do treino, quando indicada, prefiro técnicas breves e de intensidade moderada, principalmente quando queremos melhorar temporariamente a mobilidade e preparar determinada região para o movimento”, explica a Dra. Maria Amélia.
“Ela não substitui o aquecimento ativo e específico para o exercício. Depois do treino, o objetivo tende a estar mais relacionado à sensação de recuperação, redução da percepção de rigidez e conforto muscular. Nesse momento, a técnica também deve respeitar a condição dos tecidos após o esforço”.
Fazer antes de pegar carga pesada pode prejudicar a força?
Uma dúvida frequente entre quem faz treinos de força ou hipertrofia é se o relaxamento muscular causado pela liberação pode comprometer o rendimento do exercício. A resposta está na dose da aplicação.
Segundo a Dra. Maria Amélia, “uma liberação breve e bem dosada antes do exercício não necessariamente prejudica a força e pode melhorar temporariamente a amplitude de movimento”.

“O problema está no excesso. Técnicas muito dolorosas, agressivas ou prolongadas imediatamente antes de um treino de força não são uma estratégia interessante”, detalhou.
“E liberação miofascial não deve ser vista como um recurso que, isoladamente, aumenta a performance. Para quem vai trabalhar com cargas altas, o aquecimento ativo e específico continua sendo fundamental”.
Erros comuns na automassagem
Com a facilidade de comprar acessórios como rolos e bolinhas de massagem, muitas pessoas acabam executando a técnica por conta própria. O problema surge quando a prática é feita com força excessiva baseada na crença de que o alívio só vem com a dor.
“Um dos maiores erros é acreditar que ‘quanto mais dói, mais está funcionando’. Isso leva muitas pessoas a aplicarem pressão excessiva com rolos, bolas ou outros acessórios e estruturarem agressivamente sobre pontos dolorosos. Dor não é sinônimo de eficácia”, endossa.
“A automassagem deve ser feita de maneira controlada e com um objetivo definido. Se existe uma região persistentemente dolorosa, a melhor conduta não é aumentar cada vez mais a pressão, mas entender por que aquele sintoma continua aparecendo”.

Duração da liberação miofascial
Se você utiliza o rolo de espuma ou faz sessões com fisioterapeuta, o tempo dedicado a cada região muscular deve ser dosado com cuidado para evitar sobrecarregar os tecidos.
“Não existe um tempo rígido que funcione para todos. Em automassagem com rolo, por exemplo, períodos relativamente curtos (em torno de 30 segundos a 2 minutos por região) costumam ser suficientes para obter efeitos agudos sobre mobilidade e percepção de tensão. Em uma sessão profissional, o tempo pode variar porque o fisioterapeuta não trabalha necessariamente um músculo de forma isolada. A escolha da técnica e sua duração devem estar relacionadas à avaliação e ao objetivo terapêutico”.
Sentir dor durante a liberação miofascial é normal?
Embora um leve desconforto seja aceitável devido à sensibilidade da região trabalhada, a dor intensa deve ser vista como um sinal claro de alerta.
“Pode existir desconforto ou sensibilidade durante a técnica, especialmente em regiões mais tensas, mas ela não precisa ser extremamente dolorosa para funcionar. Uma sensação de pressão ou desconforto tolerável, que diminui após a interrupção do estímulo, é diferente de uma dor aguda, intensa, em choque, queimação, formigamento ou dor que se irradia”.

“Esses sintomas são sinais para interromper a técnica. Também não considero normal terminar uma liberação com hematomas importantes ou com piora significativa e persistente da dor. A técnica precisa respeitar a resposta do corpo. Mais intensidade não significa mais resultado”, finaliza a Dra. Maria Amélia.
