Raissa Rossi explica por que o corpo é o ponto de partida para aliviar a sobrecarga emocional e pequenas atitudes que podem ajudar
O hábito de remoer raiva, medo ou frustração mantém o corpo em estado de alerta e condicionado ao passado. No trânsito, no trabalho ou nas inseguranças da rotina, o problema quase nunca é o gatilho em si, mas sim o tempo que passamos revivendo a situação mentalmente.
O organismo não entende que a ameaça já acabou e segue reagindo, drenando energia vital, encurtando a respiração e gerando exaustão física e mental. Trocar e regular essas emoções não é um exercício de positividade tóxica, mas de escuta ao próprio corpo.
Para entender como virar essa chave, o Tá Saudável entrevistou Raissa Rossi — profissional que atua há mais de 15 anos na interseção entre corpo, mente e consciência — responsável por compartilhar caminhos simples para colocar em prática e transformar o que sentimos no dia a dia.
Qual é o impacto dos sentimentos negativos no nosso corpo
Biologicamente, o sistema nervoso central reage com os mesmos padrões de sobrevivência diante de um perigo físico real e de um pensamento repetitivo. Quando ficamos presos em ciclos de mágoa ou medo, o organismo segue liberando hormônios de estresse e bloqueando o relaxamento natural.
“O nosso corpo não sabe distinguir completamente uma ameaça real de uma situação que continuamos revivendo na nossa mente. Quando remoemos raiva, medo ou frustração, podemos reativar a resposta de estresse, mesmo que o acontecimento já tenha passado”, explica Raissa, formada em Comunicação das Artes do Corpo, Educação Física e Relações Públicas.
“Às vezes, o problema já terminou, mas continuamos vivendo dentro dele. Dessa maneira você está condicionado a viver no passado”, resume a especialista, que desenvolve e conduz experiências que integram movimento, respiração, meditação e neurociência como ferramentas de transformação e desenvolvimento humano.

A sobrecarga de emoções não elaboradas leva o corpo a um estado de alerta. “A respiração encurta, os músculos tensionam, o sono piora e a mente perde clareza. Ficamos mais reativos e menos conscientes”, analisa Raissa. “Quando vivemos em modo de sobrevivência, gastamos tanta energia tentando nos proteger que sobra pouco espaço para criar, sentir e viver”.
A linha que separa o saudável do prejudicial depende da capacidade de processar e liberar os sentimentos. “Sentir raiva, medo ou tristeza é normal do ser humano. O problema começa quando continuamos alimentando essas emoções com os mesmos pensamentos, repetidamente”, pontua Raissa.
“Uma coisa é sentir uma emoção. Outra é permitir que ela se transforme na sua identidade. A grade pergunta é: quanto tempo você demora para elaborar aquilo que a vida te apresenta”.
Como agir diante de um sentimento negativo
Quando uma onda de raiva, medo ou frustração nos engole, o impulso quase incontrolável é agir na defensiva — seja atacando, se fechando ou até remoendo. A primeira atitude para romper esse ciclo, no entanto, exige apenas frear a reatividade e tomar consciência do próprio estado interno.
“Parar e perceber”, aconselha Raissa. “Antes de tentar mudar o sentimento, precisamos reconhecer que estamos sendo conduzidos por ele. Observe sua respiração, seu corpo e seus pensamentos. A consciência é o primeiro passo para a mudança”.
Ferramentas para trocar o estado emocional
1. Respiração: o botão de freio do sistema nervoso
Ao alterar intencionalmente o padrão respiratório, enviamos um sinal biológico para o nervo vago, desacelerando a frequência cardíaca e ativando a resposta parassimpática de relaxamento.
“Uma das maneiras mais simples é prolongar a expiração. Inspire pelo nariz durante quatro segundos e expire suavemente durante seis ou mais. Repita por 5 minutos pelo menos”, recomenda a especialista. “Essa respiração ajuda a reduzir a ativação fisiológica do estresse”.
“A respiração é uma ponte entre o corpo e a mente. Quando você muda a maneira como respira, pode começar a mudar a maneira como se sente”, reforça.

2. Movimento: quebrando padrões posturais estagnados
O corpo adota posturas específicas para cada emoção. A raiva gera tensão, enquanto o medo pode resultar em uma retração defensiva. Mudar a postura física e colocar o corpo em movimento rompe o processo somático que mantém o cérebro em sofrimento.
“Quando você se movimenta, muda sua respiração, sua postura e sua fisiologia. E, ao mudar o estado do corpo, você também pode transformar seu estado emocional”, defende Raissa. “Qualquer movimento que o seu corpo permitir naquele momento. Não existe um movimento específico. O importante é sair do padrão em que você está”.
3. Meditação: reorganizando as ondas cerebrais
Quando juntamos foco e respiração, é como se enviássemos um comando para o cérebro finalmente desacelerar. Essa pausa tira a nossa mente do piloto automático e abre espaço para desarmar manias e reações que repetimos sem nem perceber.
“Existem vários tipos de meditação. A técnica com a qual mais me identifico e que estudo e pratico há anos combina meditação e respiração para modificar nosso estado interno”, explica Raissa. Na prática, isso mexe diretamente com o ritmo do cérebro.
“Por meio dessas práticas, podemos favorecer mudanças nas ondas cerebrais, saindo de estados de maior agitação mental, associados à atividade beta elevada, para estados mais relaxados, associados às ondas alfa e, em determinadas condições, teta. É nesse processo que conseguimos diminuir a influência da mente analítica e trabalhar padrões emocionais e comportamentais que repetimos inconscientemente”.
Para a especialista, é nesse momento que a chave vira de verdade: “A grande transformação acontece quando deixamos de repetir automaticamente as emoções do passado e começamos a cultivar, conscientemente, quem queremos ser”.

Ritual diário contra pensamentos negativos
Questionada pelo Tá Saudável, Raissa deu dicas práticas de como trabalhar essa transformação no dia a dia. Um ritual diário recomendado pela especialista consiste em reservar, antes de começar o dia, 10 minutos para respirar, silenciar e escolher conscientemente como deseja se sentir.
“Em vez de acordar e imediatamente reagir ao mundo, pergunte-se: ‘Como eu quero me apresentar ao mundo hoje? Quem eu quero ser hoje? Que emoção quero cultivar?’. À noite, observe o que viveu e o que pode fazer diferente amanhã”.
Durante um dia atribulado, pequenos intervalos intencionais impedem que o desgaste se transforme em um quadro crônico de exaustão mental. “Quando alimentamos uma emoção negativa por muito tempo, quem mais sofre os efeitos no corpo e na mente somos nós mesmos”, explica Raissa.
“Por isso, a primeira atitude é tentar sair de cena e não reagir imediatamente. Respirar profundamente, prolongando a expiração, ajuda a ativar o sistema nervoso parassimpático e recuperar a calma. Muitas vezes, ao sustentar a raiva pelo que o outro fez, quem continua sofrendo somos nós”.

Como deixar de ser refém das emoções negativas
Na visão de Raissa, para se libertar dos sentimentos negativos, é preciso “parar de esperar que o mundo externo mude para começar a se sentir diferente”. “Muitas pessoas esperam conquistar algo para sentir gratidão, resolver todos os problemas para sentir paz ou alcançar determinado resultado para sentir alegria”.
No entanto, para a especialista é fundamental não se tornar refém dos acontecimentos, cultivando “esses estados emocionais agora, sem negar as dificuldades da vida”.
“E se, em vez de esperar que a vida mudasse para você se sentir diferente, você começasse a mudar a maneira como se sente para viver a vida de uma forma diferente?”, reflete.
“Essa é uma das maiores transformações que podemos experimentar: deixar de ser conduzidos exclusivamente pelas circunstâncias e começar a participar conscientemente da nossa própria realidade”.
