Da ancestralidade aos eventos wellness, entenda o que está por trás do rito do cacau e o que diz a ciência sobre a bebida
O cacau deixou de ser apenas ingrediente de chocolates para ganhar protagonismo em retiros, festivais de bem-estar, aulas de yoga e encontros de autoconhecimento. Nos últimos anos, o chamado “rito do cacau” passou a despertar a curiosidade de pessoas em busca de experiências que unem conexão, presença e espiritualidade.
Mas, apesar da popularização, especialistas alertam que boa parte do que circula nas redes sociais simplifica uma tradição muito mais antiga e cheia de significados. Em entrevista ao Tá Saudável, a terapeuta integrativa e guardiã dos saberes do cacau Tali Kailash explica que compreender a origem da bebida, respeitar sua história e conhecer a procedência do ingrediente são aspectos tão importantes quanto a própria experiência.
Cerimônia ou rito do cacau?
Embora a expressão “cerimônia do cacau” tenha se tornado popular, Tali explica que o termo não representa exatamente o que acontece na maioria das vivências realizadas atualmente.
Segundo ela, a “cerimônia do cacau” é um ritual específico realizado em homenagem ao próprio cacau, geralmente em celebrações anuais relacionadas à colheita, realizado por quem trabalha com a produção do cacau, especialmente em países como o México.
“O que fazemos hoje são rituais ou vivências com o cacau. Cerimônia do cacau, tradicionalmente, é outra coisa”, explica.
Por isso, ao longo desta reportagem, utilizaremos a expressão rito ou vivência com cacau, considerada mais fiel às tradições ancestrais.
Uma tradição com mais de 5 mil anos

Muito antes de chegar às cafeterias e aos retiros de bem-estar, o cacau já ocupava um lugar sagrado entre diferentes civilizações.
Evidências arqueológicas indicam que o uso do cacau remonta a mais de 5 mil anos entre povos da América do Sul e, posteriormente, entre civilizações mesoamericanas. O cacau era usado em celebrações importantes, como casamentos, nascimentos, despedidas e rituais dedicados às divindades.
Além do caráter simbólico, a bebida também fazia parte de práticas de cura e de fortalecimento comunitário.
Tali explica que a expansão dos rituais contemporâneos acontece como parte de um movimento maior de reconexão com saberes ancestrais, impulsionado pelo crescimento do yoga, do interesse por espiritualidade, da valorização das culturas indígenas e da busca por práticas integrativas.
Cacau não é alucinógeno
Ao contrário de outras chamadas “plantas de poder”, o cacau não provoca alterações de consciência nem possui efeito alucinógeno.
Essa característica, segundo Tali, ajuda a explicar sua crescente popularidade.
“O cacau traz presença. Ele não vai me deixar bêbada, como se fosse um álcool, uma droga. Acho que ele começou a criar mais popularidade por trazer esse bem-estar sem tirar a consciência.”
Ela explica que a bebida costuma ser utilizada antes de práticas como meditação, dança, yoga, música, respiração consciente e outras atividades contemplativas porque pode favorecer relaxamento e maior percepção corporal.
Além disso, muitas pessoas procuram a experiência como uma pausa da rotina acelerada e hiperconectada.
O que a ciência diz sobre os benefícios do cacau?

blandinejoannic/ Pixabay)
Embora muitos benefícios atribuídos aos ritos estejam ligados à experiência subjetiva, existem propriedades nutricionais do cacau bem documentadas pela ciência.
O cacau puro é rico em compostos bioativos, entre eles:
- flavonoides com ação antioxidante;
- magnésio;
- ferro;
- cobre;
- zinco;
- fósforo;
- teobromina, substância estimulante semelhante à cafeína, porém com efeito mais suave.
Estudos mostram que o consumo de cacau pode contribuir para melhora da função dos vasos sanguíneos e redução da pressão arterial em algumas pessoas.
Não existem estudos clínicos capazes de demonstrar que o cacau, isoladamente, produz estados específicos de presença ou expansão da consciência, mas ele é comumente associado à melhora do humor e da sensação de bem-estar.
O que é o chamado “cacau sagrado” ou “cacau cerimonial”?

O ingrediente utilizado nos ritos é bastante diferente do chocolate consumido no dia a dia.
O chamado cacau sagrado ou cerimonial é produzido com mínimo processamento para preservar seus compostos naturais, especialmente a teobromina.
Os estudos feitos com cacau e chocolate reforçam que, quanto menos processado o cacau, maior tende a ser a preservação dos flavonóides. O cacau natural retém mais desses compostos do que o cacau submetido ao processamento intenso.
Em geral, o cacau utilizado nessas vivências apresenta algumas características:
- é feito apenas com a massa integral do cacau;
- recebe pouca torra;
- não contém açúcar;
- não leva leite;
- não recebe emulsificantes ou aromatizantes;
- preserva boa parte da manteiga natural do cacau.
Não basta ser qualquer cacau 100%.
Respeito também faz parte da experiência

Davi Rosário/ Pexels)
Outro aspecto valorizado por quem trabalha com os ritos é a origem do ingrediente.
Tali conta que muitos facilitadores – que são as pessoas que guiam os ritos – buscam produtores que adotem práticas sustentáveis, preservem sistemas agroflorestais e garantam relações de trabalho éticas.
Ela lembra que a cadeia global do cacau ainda convive com denúncias relacionadas ao trabalho infantil e ao trabalho análogo à escravidão em alguns países produtores.
“A gente está utilizando o cacau como sagrado, né? A gente entende que ele está facilitando a nossa conexão com a natureza e tudo mais, então é respeitoso e importante para nós buscarmos fazendas e produtores que têm uma conscientização quanto ao trabalho. É um movimento que a gente também olha pra origem.”
Entre as marcas brasileiras frequentemente lembradas por consumidores desse segmento está a AMMA Chocolate, reconhecida pelo trabalho com cacau orgânico e sistemas agroflorestais.
Também existem pequenos produtores artesanais que comercializam massa de cacau própria para bebidas, como a Pedra do Sabiá.
Como é preparada a bebida?

Para quem olha de fora, a bebida pode até lembrar um pouco um chocolate quente, mas a experiência é completamente diferente.
O preparo costuma ser simples:
- ralar ou picar a massa de cacau;
- dissolver em água quente;
- mexer continuamente até formar uma mistura homogênea.
Durante o preparo podem ser adicionadas especiarias, como:
- canela;
- pimenta-caiena;
- pimenta-do-reino;
- baunilha.
Segundo Tali, há registros de uma receita maia que combinava cacau, água, baunilha, mel e farinha fina de milho.
Ela explica que o importante não é apenas a receita, mas também a intenção colocada durante o preparo.
Receita básica de bebida de cacau
Ingredientes
- 20 g de massa de cacau puro
- Cerca de 100 ml de água quente
Opcional
- Canela a gosto
- Uma pitada de pimenta-caiena
- Mel
Modo de preparo
Rale a massa de cacau. Aqueça a água sem deixar ferver vigorosamente, adicione o cacau e mexa continuamente até dissolver completamente. Acrescente outros ingredientes se desejar.
Segundo Tali, cerca de 20g costumam ser o indicado para o consumo cotidiano. Em vivências conduzidas por facilitadores, normalmente utiliza-se uma quantidade maior, próxima de 40g.
O que considerar antes de preparar em casa?
Quem deseja conhecer o cacau pode começar pela bebida preparada em casa, mas alguns cuidados fazem diferença:
- escolha massa de cacau de boa procedência;
- prefira produtores transparentes quanto à origem;
- evite confundir chocolate 100% industrializado com massa de cacau cerimonial;
- não exagere na quantidade;
- pessoas com condições de saúde específicas devem conversar com um profissional antes do consumo frequente.
Tali também recomenda transformar o preparo em um momento de pausa.
“Enquanto mexo o cacau, também coloco minha intenção para aquele momento. É uma forma de trazer presença para o cotidiano.”
A diferença para um rito com cacau

Os encontros costumam combinar o consumo da bebida e práticas como meditação, dança livre, música ao vivo, momentos de silêncio e rodas de conversa.
Cada facilitador conduz a experiência de maneira diferente.
Algumas pessoas relatam sensação de acolhimento, maior conexão consigo mesmas, relaxamento ou emoção. Outras simplesmente apreciam o momento sem perceber mudanças significativas.
“É muito sutil. Tem gente que diz que sentiu tudo. Tem gente que diz que não sentiu nada. Não existe uma experiência igual para todo mundo“, afirma Tali.
Independentemente das crenças de cada pessoa, os ritos com cacau chamam atenção por resgatar algo cada vez mais raro na rotina contemporânea: a capacidade de desacelerar.
Este artigo contém informações da entrevista feita com terapeuta integrativa e guardiã dos saberes do cacau Tali Kailash e das publicações “Dark Chocolate”, da faculdade de saúde pública de Harvard, e “Archived: The Chemistry of Chocolate”, do National Institutes of Health.
