Polilaminina

Polilaminina: entenda a polêmica sobre a droga que gerou esperança em pessoas com paraplegia

Veja respostas para dúvidas comuns sobre a polilaminina, os supostos resultados da substância, os testes com ela e mais

A polilaminina, que virou um dos tópicos mais comentados em termos de saúde desde o segundo semestre de 2025, certamente cria muita esperança. Décadas de pesquisa chegaram a uma proteína produzida a partir da placenta que tem potencial para mudar a vida de pessoas com paraplegia – mas há muito a se entender sobre ela ainda.

Diante dos supostos resultados (como a recuperação de Bruno Drummond de Freitas após uma lesão cervical grave), muitos têm se perguntado quando o tratamento chegará à população. Há inclusive quem já tenha obtido acesso a ele por via judicial mesmo em meio aos testes – e os relatos sobre o uso alimentam a ideia de que ele é totalmente eficaz e seguro. Isso, porém, ainda não foi comprovado.

Entenda tudo sobre a polilaminina abaixo, incluindo como ela age, como interpretar os resultados relatados por pacientes que receberam a droga e também o que dizem os órgãos competentes sobre sua aplicação em ampla escala:

6 perguntas e respostas importantes sobre a polilaminina

O que é a polilaminina e o que se espera dela?

Tratamento para paraplegia, Polilaminina
(Crédito: Reprodução/Rede Globo)

A polilaminina (polyLM) é uma forma polimerizada da laminina, proteína que existe naturalmente na placenta e participa do desenvolvimento fetal. Ela foi criada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Todo o furor em torno dessa substância que ainda está em fase inicial de testes se deve ao seu objetivo. Durante o desenvolvimento fetal, ela forma uma espécie de “malha” que impulsiona a comunicação entre neurônios. Ao longo do tempo, ela deixa de existir no organismo – e a esperança é que reintroduzi-la no corpo em casos de lesão pode estimular a recuperação de forma mais eficaz.

Isso, é claro, representa uma grande esperança em casos nos quais pacientes poderiam ficar – ou ficaram – paraplégicos

Já é possível usar polilaminina no Brasil?

Tratamento para paraplegia, Polilaminina
Algumas pessoas já fizeram uso do tratamento (Crédito: Reprodução/Rede Globo)

Atualmente, a polilaminina está em fase de testes. Antes de chegar aos hospitais e farmácias, todos os medicamentos precisam passar por estudos que atestam sua segurança e eficácia conforme mandam órgãos regulatórios – e com a polilaminina não será diferente. 

Atualmente, ela não está disponível para a população geral, visto que acaba de entrar na fase I de testes clínicos, conforme autorizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Quem já utilizou a substância o fez por via judicial.

Esse acesso ocorre por meio de um mecanismo chamado uso compassivo ou acesso estendido. Pessoas com doenças graves e sem alternativas terapêuticas podem receber medicamentos experimentais (ou seja, em fase de testes) sob certas condições e acompanhamento médico rigoroso.

Isso não vale apenas para a polilaminina. Há casos de pessoas que conseguem acesso a tratamentos experimentais, por exemplo, para câncer em cenários nos quais não há mais possibilidade de tratamento convencional. Os resultados desse uso contribuem com a pesquisa, mas não há garantia de que o medicamento fará bem ou mal ao paciente.

A polilaminina é eficaz?

Tratamento para paraplegia, Polilaminina
Bruno Drummond de Freitas (Crédito: Reprodução/Rede Globo)

Não é, até o momento, seguro afirmar que a polilaminina é eficaz por diversos motivos. Atualmente, a substância está na primeira de três fases de testes pelas quais os medicamentos passam para ter segurança e eficácia comprovadas – e isso não é obtido por observação.

Testes com remédios são rigorosos. Neles, há a comparação com grupos de pessoas que receberam um placebo, algo que torna viável concluir se os efeitos sobre um paciente foram ou não diretamente causados pela medicação.

Além disso, ainda que os relatos recentes soem animadores, é importante lembrar que muitos pacientes com lesão parcial ou total na coluna apresentam regressão dessas lesões naturalmente com o uso dos tratamentos já conhecidos. Sendo assim, é provável que pessoas que usaram polilaminina e se recuperaram também se recuperariam sem ela.

Em meio às discussões, inclusive, a Academia Brasileira de Neurologia reforçou a necessidade de aguardar os testes da polilaminina antes de cravar sua eficácia ou aplicá-la em larga escala. Além disso, o laboratório Cristália, que está produzindo a substância, também já frisou que não é possível, até o momento, atestar eficácia.

“Estamos conduzindo estudos experimentais em animais para definir como (e se) o tratamento poderá ser realizado em humanos. Até o momento, os dados disponíveis não permitem dizer que o uso em pessoas com lesões crônicas é seguro e eficaz”, diz o comunicado.

Por que a polilaminina gerou polêmica?

Tatiana Coelho de Sampaio (Crédito: Reprodução/Rede Globo)

A polilaminina gerou polêmica porque, embora autoridades médicas e a própria pesquisadora da substância tenham reforçado a necessidade de seguir o curso natural de testes, muitas pessoas já tratam a droga como um sucesso.

Nas redes sociais, não é incomum ver posts de pessoas pedindo a liberação imediata da polilaminina e criticando pessoas que pedem cautela. Essa cautela é recomendada justamente porque não é, ainda, possível afirmar que o medicamento é eficaz. 

Discussões assim, portanto, geraram suposições e conspirações sobre a própria estudiosa, os objetivos dela e um suposto “desinteresse” por parte de órgãos reguladores.

Em qual fase de estudos a polilaminina está?

paraplegia, lesão na coluna
(Crédito: jcomp/Freepik)

No início de janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início da fase I de testes com a polilaminina. Essa etapa envolverá a aplicação da substância em cinco pacientes voluntários com indicação cirúrgica em até 72 horas após a lesão.

Em comunicado, a Anvisa afirmou ter priorizado a aprovação dessa fase de testes com o objetivo de acelerar as pesquisas sobre essa substância devido ao amplo interesse público. Não há previsão sobre as próximas etapas de testes.

Por que testes com placebo são importantes?

lesão na coluna, costas, coluna
(Crédito: kjpargeter/Freepik)

Ao realizar testes com remédios, vacinas e outras substâncias em humanos, especialistas separam grupos que recebem a droga e grupos que recebem um placebo. O placebo é uma substância neutra, que não causa malefícios ou benefícios – e, por fim, os resultados de cada grupo são comparados.

Isso é importante porque o fato de um paciente saber que recebeu uma droga pode alterar a percepção dele sobre os resultados. Testes devem ser “cegos” para que o resultado seja imparcial e coerente com a realidade. Dessa forma, é possível avaliar riscos e benefícios sem qualquer influência psicológica.

Saúde