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Mounjaro é para sempre? O que dizem médicos sobre o desmame do remédio

Médicas explicam as possíveis variações no tratamento para obesidade com as “canetas emagrecedoras”, destacando casos em que é preciso manter o uso delas

Os análogos de GLP-1 e GIP, mais conhecidos como “canetas emagrecedoras” (como Wegovy e Mounjaro, por exemplo) revolucionaram o tratamento para obesidade. Com elas, pacientes conseguem perder peso mais rapidamente, reduzindo muito a chance de eventos adversos ligados ao sobrepeso. É sabido, porém, que pode existir um reganho de peso após a suspensão do medicamento, levando à dúvida: afinal, é possível suspender as canetinhas?

Entenda abaixo o que dizem os médicos sobre o tratamento com esses medicamentos, e se é possível suspendê-lo.

Tratamento para obesidade: é possível parar com o Mounjaro?

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(Crédito: Freepik)

“Canetas emagrecedoras” funcionam retardando o esvaziamento gástrico. Isso significa que o paciente faz refeições menores e demora a sentir fome após comer. No caso do Mounjaro, há também efeito no cérebro, reduzindo o chamado “food noise” – ou seja, a preocupação excessiva com a comida, sintoma com que a maioria das pessoas com obesidade lida. Mas e quando o tratamento é suspenso e o paciente retoma o apetite?

Publicado no JAMA Network Open em 2025, um estudo mostrou que 82% dos pacientes que usam esses tratamentos recuperam o peso após o fim do tratamento. Isso, segundo a médica nutróloga Andyara Gelmini, ocorre porque o medicamento não cura a obesidade, que é uma doença crônica. 

Por ser multifatorial, o tratamento dela também deve ser e, por isso, o uso das “canetinhas” não basta. O paciente deve usar o período em que está sob efeitos do remédio para reorganizar o comportamento alimentar, rever e criar hábitos saudáveis (como a prática regular de exercícios físicos) e buscar acompanhamento psicológico em casos, por exemplo, de compulsão alimentar. 

Além disso, há também estratégias práticas para manter o paciente no caminho certo. A médica explica que pacientes com bom gerenciamento de estresse, alimentação rica especialmente em fibras e proteínas, que planejam suas refeições, praticam ao menos 300 minutos de atividade física por semana, e não deixam os treinos de força de lado, por exemplo, têm chances de fazer um desmame bem-sucedido caso mantenham o acompanhamento médico e monitorem o peso de perto.

Sendo assim, é, sim, possível fazer o desmame total do Mounjaro e outras medicações semelhantes em um cenário extremamente específico, com alta adesão ao novo estilo de vida. É preciso priorizar o ato de comer bem, e não o de fazer dietas difíceis de manter. O exercício físico deve ser parte inegociável da rotina, e não algo que se faz quando dá tempo. As consultas com o médico devem ser um compromisso, e não algo opcional.

Quando o tratamento para obesidade requer medicamento contínuo

Mounjaro e pancreatite
(Crédito: Tá Saudável)

Conforme explica a médica endocrinologista Patrícia Baines Gracitelli, especialista em Medicina do Estilo de Vida, não existe um consenso sobre a retirada do medicamento. Isso porque a obesidade é uma doença recidivante, que pode gerar reganho de peso mesmo com acompanhamento multidisciplinar.

“Nosso cérebro registra o peso máximo que já tivemos e vai sempre buscar esse peso novamente quando você perde. Quanto maior o peso e a perda, mais o corpo vai querer recuperar o peso antigo. A estimativa é que, para cada quilo perdido, o corpo aumente em 100 calorias a fome. Ou seja: se você perder 10 quilos, vai ter mil calorias a mais de fome. É difícil controlar isso sem o medicamento, e não é porque a pessoa não tem autocontrole, mas porque essa é a fisiologia da obesidade”, explica a endocrinologista.

Por isso, em alguns casos, as médicas defendem manter o remédio, mesmo que em uma dose mais baixa, aplicada mensalmente. “Alguns perfis podem se beneficiar da manutenção do medicamento em doses menores ou aplicações mais espaçadas incluem pacientes com obesidade de longa data, histórico de efeito sanfona, presença de compulsão alimentar, alterações metabólicas importantes (como resistência à insulina) e histórico familiar forte de obesidade”, destaca a nutróloga.

É importante frisar, inclusive, que manter um medicamento para tratar a obesidade não é um sinal de fracasso. Há inúmeras condições de saúde cujo controle requer medicação constante, como hipertensão, colesterol alto e diabetes. A conduta de manter um remédio para obesidade mesmo após a perda de peso não indica falta de esforço, mas sim a necessidade de livrar o paciente das possíveis consequências de uma doença crônica.

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