Um bom tênis vai absorver o impacto das passadas e distribuir ao longo do sistema músculo-esquelético durante a corrida
A corrida é conhecida como um dos esportes mais democráticos e simples de aderir. Basta colocar um tênis e sair correndo por aí. Mas é justamente o calçado que pode causar maiores dúvidas logo de início – e é esse item que irá absorver e distribuir o impacto entre o nosso corpo e o solo.
“Durante a corrida, cada passada pode gerar forças de reação do solo que chegam a aproximadamente 2 a 3 vezes o peso corporal”, explica a médica do esporte e ortopedista Ana Paula Simões, da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, em entrevista ao Tá Saudável. “O calçado interfere na forma como essas cargas são distribuídas ao longo do sistema músculo-esquelético.”
Importância do tênis para corrida

A especialista lista os principais aspectos biomecânicos influenciados pelo tênis na corrida:
- • Atenuação de impacto;
- • Estabilidade do pé durante a fase de apoio;
- • Eficiência da transição entre contato inicial e impulsão.
“Um modelo adequado ajuda a reduzir picos de carga repetitiva em estruturas como fáscia plantar, tendão de Aquiles, articulações do mediopé e compartimento anterior da perna.”
Apenas um bom tênis não irá prevenir lesões, de forma isolada, mas Ana Paula conta que estudos indicam que corredores tendem naturalmente a ajustar o padrão de movimento quando utilizam um calçado que consideram confortável, o que geralmente resulta em menor gasto energético e menor sobrecarga localizada. “Chamo isso de ‘filtro do conforto’.”
Para o atleta olímpico Lucas Mazzo, um tênis bom melhora os treinos e deixa a pessoa mais confiante para provas.
“Não existe o tênis certo, mas existe o tênis certo para você. Quando você encontrar, pode ter certeza que vai colocar no pé e sentir que ele é bom.”
Como escolher um tênis de corrida?

Ana Paula concorda que não existe um “melhor tênis universal”. O modelo mais adequado depende de características do corredor, histórico de lesões, volume de treino e adaptação individual.
A especialista lista fatores importantes que devem ser considerados na escolha:
- • Conforto imediato
- • Ajuste ao formato do pé
“Largura do antepé, espaço adequado para os dedos – peço 1 dedo de sobra – e fixação do mediopé são essenciais para evitar compressões e instabilidade.” - • Capacidade de amortecimento compatível com o peso corporal e volume de treino
“Corredores mais pesados ou que correm distâncias maiores tendem a se beneficiar de entressolas com maior capacidade de absorção de impacto.” - • Drop (diferença de altura entre calcanhar e antepé)
“Pode influenciar o padrão de contato com o solo e a carga no tendão de Aquiles e panturrilha. Mudanças abruptas neste parâmetro devem ser feitas de forma progressiva.” - • Estabilidade da entressola
“Importante para controlar movimentos excessivos do retropé e mediopé, principalmente em corredores iniciantes ou com menor controle neuromuscular.” - • Tipo de terreno e volume semanal
“Corrida em asfalto, trilha ou esteira demandam características diferentes de tração e proteção. Assim como quem treina na pista ou saibro, os tênis são diferentes.”
“Isso que nem falamos de tênis de placa”, brinca a especialista. Trata-se de um tênis com uma placa rígida que pode ajudar o corredor, especialmente em provas. Mas esse modelo é melhor deixar para quem não é iniciante.
Lucas até alerta que tênis, principalmente de placa, “não faz milagre”. “Se você não treinar, ele não irá te ajudar, pelo contrário, pode te atrapalhar.”
O atleta afirma também que é muito importante treinar para entender o tênis. Isso para conhecer como o calçado se encaixa e como ele funciona no pé.
E sobre pisada supinada, pronada e neutra, que tanta gente fala, o atleta garante que “essa a última coisa que irá atrapalhar sua corrida ou a escolha do seu tênis”. “Vai por mim”, diz Lucas.
Outra dica: atente-se à meia que está usando. Às vezes o tênis é o certo para você, mas está usando a meia errada. Varie o modelo da meia para encontrar a que melhor combina com o calçado escolhido. Também fará diferença.
Condições pré-existentes
Como a própria médica do esporte resumiu, “o tênis é um componente relevante do sistema de corrida, mas seu papel deve ser entendido dentro de um contexto maior, que inclui técnica de corrida, progressão de carga, força muscular e características individuais do corredor”.
Por isso mesmo, pessoas com condições pré-existentes devem levar em consideração as características da condição. Pessoas com hipermobilidade articular, por exemplo, devem considerar a maior amplitude de movimento e menor estabilidade.
“Nesses casos, costuma ser útil priorizar calçados com maior estabilidade estrutural, como entressolas mais firmes, base de apoio mais larga e bom controle do mediopé. Esses elementos ajudam a reduzir movimentos excessivos durante a fase de apoio. Além disso, o ajuste adequado do cabedal e a fixação do calcanhar são particularmente importantes.”
Indicação de tênis

O Tá Saudável aproveitou a conversa com Ana Paula e Lucas para pedir a indicação de tênis deles para quem quer correr.
Os valores variam entre R$ 350 e R$ 1600, dependendo do modelo, numeração e local de compra.
Indicações da médica do esporte e ortopedista Ana Paula Simões
“Em geral, para iniciantes, recomendo tênis neutros, com bom amortecimento e estabilidade, chamados de ‘daily trainers’, que ajudam na adaptação à corrida e reduzem o impacto nas primeiras semanas de treino”, explicou a médica.

1. Nike Pegasus 41
“Clássico ‘daily trainer’, muito versátil, com amortecimento ReactX responsivo e estável para quem está começando. A forma dele é mais estreita, então recomendo experimentar e considerar 1 dedo de sobra.”

2. Adidas Supernova Rise
“Amortecimento macio (Dreamstrike+) e excelente conforto para treinos leves e corridas curtas. Foi o meu primeiro tênis de corrida. Amo.”

3. ASICS Gel-Nimbus 26
“Amortecimento máximo e ótima absorção de impacto, muito indicado para iniciantes ou corredores mais pesados. O preferido dos meus pacientes.”

4. Brooks Ghost 16
“Um dos tênis mais estáveis e previsíveis do mercado, muito usado em clínicas de corrida para quem está começando. Já temos no Brasil.”

5. Mizuno Wave Rider 28
“Placa Wave melhora estabilidade e durabilidade, ideal para corredores iniciantes. Perfeito.”

6. New Balance Fresh Foam X 1080 v13
“Muito confortável, com espuma macia que reduz impacto articular. Os fãs defendem como o melhor.”

7. Saucony Ride 17
“Tênis equilibrado, com bom amortecimento e transição suave de passada. Famoso no exterior, agora no Brasil.”

8. Hoka Clifton 9
“Amortecimento alto e sensação de corrida leve, reduz impacto em joelho e quadril. Perfil alto. Ótimo para prevenir lesões.”

9. Olympikus Corre 4/ Corre Grafeno
“Excelente custo-benefício nacional, leve e muito durável. Tênis de saída da maioria.”

10. Fila Racer Speedzone
“Leve e confortável, boa opção de entrada para quem quer começar a correr.”
Indicações do atleta olímpico Lucas Mazzo
Já na lista de Lucas há também opções de tênis com placa, focando mais em performance. Esses modelos muitas vezes são mais caros e acabam tendo uma durabilidade menor que os tênis convencionais.

1. Adidas Duramo Speed 2
“Sugestão de tênis para quem busca durabilidade e conforto”

2. Olympikus Veloz 3
“Sugestão de tênis para quem busca durabilidade e conforto”

3. Adidas Takumi 8 ou 9 ou 10 ou 11
“Com placa. Tênis pra performance, para usar somente em tiros e provas”

4. Puma deviate nitro elite 3
“Com placa. Esse aguenta bastante tempo também, é muito leve.”

5. Olympikus Corre Supra 2
“Com placa. Muito leve, tênis para performance.”
Para cuidar do tênis
E já que o gasto com tênis é alto, é importante ter cuidados para aumentar a durabilidade do calçado.
Uma dica de Lucas é ter pelo menos dois tênis. “É de suma importância você revezar. Vão durar mais e você pode usá-los para determinadas especificidades. Um para longão e regenerativo e outro para tiros e provas. Agora, mais de três tênis pode ser exagero.”









