Sonhos

Confusos, alegres, eróticos, assustadores e marcantes. Não faltam adjetivos para a classificação dos sonhos. A nossa vida está cheia dessas visões, às vezes sem sentido, durante as horas que descansamos o corpo e a mente. O que significam: mensagens, presságios ou obra do subconsciente? As teorias de como os sonhos se formam dividem opiniões. Certo mesmo é que sonhar não custa nada… E, quando o sonho é bom, serve de alento.

Segundo pesquisas americanas, apesar de não recordarmos, sonhamos, em média, de quatro a cinco vezes por noite. E temos de quatro a seis fases de sono – variando de acordo com idade, temperatura ambiente, ingestão de drogas ou determinada patologia – e em todas elas podemos sonhar. O sono leve, o início, tem a duração de alguns minutos. É quando ficamos relaxados, com os pensamentos mais ou menos desordenados, podendo ocorrer os sonhos. Em seguida, acontece um relaxamento maior, propício a alucinações, movimentos desordenados do corpo e sensações de queda. A terceira etapa é a do sono profundo. Período em que nos tornamos insensíveis aos sons e resistentes em sermos acordados, é quando nos desligamos do mundo exterior.

Às vezes, você não consegue dominar o acontecimento e acorda assustado. Criança sonha toda hora. O adulto organiza isso de forma condensada

Estudos do sonho

A teoria apresentada por Sigmund Freud, em 1900, no livro “A interpretação dos sonhos”, defende o conceito que os sonhos são formados por acontecimentos do passado e do presente, sem nenhuma ligação com o futuro. De acordo com os estudos de Freud, mesmo com a aparência confusa e por vezes hostil, eles seguem a padrões e são defensores do bom sono. Na época, a teoria de que os sonhos serviam de guardiões para o sono não teve aceitação imediata. Mas atualmente a maioria dos médicos acredita que o conceito seja sensato.

A psicóloga Tatiana Vasconcelos Cordeiro explica que, para a psicanálise, o sonho é um meio pelo qual o inconsciente procura alertar a consciência para o que ela não percebe ou não quer aceitar, e tenta, por compensação, equilibrar a psique, a totalidade de fenômenos psíquicos. “Os sonhos trazem à tona os complexos e sugerem alternativas para a consciência, cujo centro é o ego, realizar o que a pessoa é potencialmente. Ou seja, os sonhos são avisos”, afirma a psicóloga.

O pensamento freudiano revela também que os acontecimentos esquecidos ficam armazenados no subconsciente. A função dos sonhos é fantasiar o material que está perdido, como desejos reprimidos, ameaças, culpa e outros sentimentos. Os conhecimentos desenvolvidos por Freud levaram os sonhos para o campo da psicologia e da psicanálise, demonstrando que são as realizações de desejos. Antes disso, eram considerados como premonições ou manifestações divinas.

“Nós somos responsáveis pelo que sonhamos. Acredito que não há contradição entre o psíquico e a fisiologia dos sonhos. De qualquer forma, sonhar é uma elaboração de memórias arcaicas, sensações e experiências. Sonhamos com os resíduos do dia, impressões mínimas. Pensamentos recentes e antigos se sobrepõem e o inconsciente faz a seleção. Algumas coisas ficam mais marcadas”, afirma a psicanalista Ana Maria Rebouças.

Sonhos x desejos

O sonho também é uma forma de aprendizagem, de fixar memórias e pôr para fora pensamentos insignificantes. É uma possibilidade de fantasiar o que quer que seja, além de ser uma forma de preparação para encarar os problemas. “Para a psicanálise, sonhar é maravilhoso. Você expressa os desejos sem censura ou medo”, continua a Ana Maria.

A psicóloga Tatiana Vasconcelos Cordeiro também concorda com a teoria que os sonhos são frutos da nossa rotina. “A maioria dos sonhos está relacionada a acontecimentos cotidianos, que aparentemente nada possuem de relevantes. No entanto, estão ligados com outras áreas de nossa vida por meio de uma cadeia de associações que fazemos inconscientemente o tempo todo”, revela.

Se sonhamos tanto, por que lembramos tão pouco dos sonhos? Segundo a Dra. Ana Maria, isso é uma censura automática que ocorre no inconsciente humano. “O nosso ‘eu’ entra em ação e organiza a realidade e o sonho. Na hora que acordamos, voltamos aos padrões atuais. Se você for despertado enquanto sonhava, certamente irá lembrar de boa parte do sonho. Para a neurociência, perdemos a memória imediata por conta de elementos fisiológicos que agem no cérebro”.

Celeiro de sonhos

Pesquisador de sonhos da mesma época que Freud, L. Strumpell acreditava em vários fatores para que não sejamos capazes de recordar dos sonhos. Ele explicava que imagens e sentimentos são rapidamente esquecidos quando se acorda. Também considerou o fato de que muitas imagens do sonho são menos intensas que outras e, por isso, seriam facilmente descartadas da nossa mente. Outra razão de sua teoria é a de que aprendemos e memorizamos por associação e repetição. Conclusão: como os sonhos são únicos e, às vezes, vagos, não conseguimos lembrar de todos os detalhes. “Podemos lembrar de um sonho com detalhes e também sonhar vários sonhos e sequer lembrar que o tivemos”, diz Tatiana Vasconcelos.

Carl Jung, assim como Freud, concordava que os sonhos tinham origem psicológica, mas considerava que eles surgiam na mente humana para resolver nossos problemas e fazer com que refletíssemos sobre nossas próprias pessoas, como um auto-retrato espontâneo. Segundo ele, os sonhos paranormais acontecem quando a pessoa está com uma grande carga de emoção, geralmente estressada.

Em 1973, Allan Hobson e Robert McCarley apresentaram uma outra teoria. O estudo deles defende o conceito de que os sonhos são obras de atividades cerebrais durante o sono. Ou seja, a mente humana cria histórias semelhantes ao delírio, que lembramos como sonhos, pois o cérebro quer dar sentido ao que foi experimentado.

A fisiologia

Na neuro-psicanálise, o sonho é fenômeno psíquico, porém com características biológicas. Funciona como um mecanismo de sobrevivência, que tem a função de manter o equilíbrio do organismo. O seu principal representante, Mark Solms, da Universidade de Cape Town, na África do Sul, defende que é o resultado da evolução das espécies. E que, desde as mais remotas épocas, os homens procuram entender as mensagens ou os significados desses fenômenos, intrigantes e misteriosos, que são os sonhos. O que tem variado, ao longo do tempo, é a importância atribuída e a compreensão que se tem deles. Se os sonhos são vistos como série de imagens, que aparecem sem sentido para a personalidade do sonhador, ou se são encarados como mensagens do além, isso demonstra apenas diferentes interpretações, as quais refletem o status ou a valorização dados a eles.

Uma das funções dos sonhos seria, justamente, contrabalançar a racionalidade do pensamento verbal com um pensamento em imagens e símbolos. Sua lógica é afetiva, figurativa. Não é linear, cartesiana, mas dramática, mitológica. “O sonho é importante por indicar inter-relações não sabidas, mas existentes. Mesmo que pareça fugaz, já que escapa à captação e a retenção na memória, ele mobiliza impressões profundas que não podem ser transmitidas verbalmente, mas que permeiam e deixam sua marca em nós. Aquilo que em uma primeira observação parece estranho, ilógico, pode, em um exame mais cuidadoso e meticuloso, revelar seu significado e importância no desenvolvimento normal e em seus distúrbios “, detalha a psicóloga Tatiana Vasconcelos.

Mistérios da noite

Os mais místicos acreditam no poder das premonições. Os sonhos proféticos, segundo eles, ocorrem com mais freqüência na terceira metade da noite, momento em que estamos descansados e com menos lembranças da véspera. Geralmente, são simbólicos. “Acho que temos muito mais recursos do que pensamos ter. Volta-e-meia, você capta detalhes que podem antecipar acontecimentos”, opina a psicanalista Ana Maria Rebouças. Já a psicóloga Tatiana Vasconcelos Cordeiro não acredita em nenhuma relação entre sonhos e futuro.

Sonho nas religiões

O babalorixá Gerson Oliveira Santos, do Ilê Axé Ilê Nitó Dadé Já, é adepto do candomblé e explica que os sonhos são premonitórios. Seriam as manifestações do banco de memória das encarnações passadas. “Muitas pessoas sonham que estiveram em um lugar, mas ficaram com a sensação que já passaram por lá antes. São vidas passadas. Porém, eles desconhecem isso”, afirma Gerson. Ainda de acordo com o babalorixá, nada acontece na nossa vida por acaso. “Sonhar que estar voando é sinal de prosperidade, caindo é indício de doença ou brigas. Discussões pode ser sinal de festa. Mordida ou ataque de animal é desejo sexual reprimido. Ver sua imagem no espelho é a apresentação de espíritos de suas vidas passadas. Certa vez, uma cliente sonhou que o marido a matava quando descia do carro. Ela estava grávida e, ao acordar do pesadelo, percebeu um sangramento. Perdeu o bebê. O subconsciente dela já estava avisando isso”, relembra.

Pesadelos

Sonhos pesados são comuns em pessoas que passam por problemas ou fase difícil. Alterações significativas na vida costumam levar a um comportamento negativo da mente humana. “Os pesadelos, como muitos outros sonhos, indicam freqüentemente assuntos inacabados, questões que precisam da nossa atenção. No entanto, é igualmente verdade que podem necessitar de uma abordagem que vise diminuí-los. A simples decisão de focar a mente em assuntos positivos e agradáveis durante o dia e antes de dormir pode ajudar”, diz Tatiana. Mas, se os seus pesadelos se tornaram incomodativos, produzindo repercussões durante o dia, talvez seja bom fazer terapia.

Especialistas revelam que a tendência do nosso subconsciente é maior para prever as coisas negativas. Segundo a Dra. Ana Maria, uma pesquisa desenvolvida por cientistas revela que 68% dos sonhos de uma pessoa são desagradáveis, 18% alegres, 2% hostis para o sonhador e 1% sexuais.

Ana Maria Rebouças explica o motivo de, geralmente, acordarmos após sonhos ruins. “Às vezes, você não consegue dominar o acontecimento e acorda assustado. Criança sonha toda hora. O adulto organiza isso de forma condensada”.

Há quem afirme que pesadelos também podem acontecer por causa de perturbações digestivas, conflitos emocionais ou má posição na cama. Quem dorme de costas, com toda a roupa da cama sobre o peito, estaria sujeito a sonhos ruins. Pessoas agitadas e irritáveis, de Q.I muito elevado, e sonâmbulos também seriam vítimas. “Estímulos do mundo externo podem influenciar no sono. Um cheiro de queimado tem capacidade para ‘furar’ a barreira do sono. Sonhamos muito com coisas que devem ser refeitas, pois devemos consertá-las”, explica Dra. Ana Maria.

Psicólogos e psicanalistas podem ajudar em casos que necessitam de acompanhamento médico. Ter pensamento positivo antes de dormir, esquecer as preocupações, tomar um banho morno, beber chá relaxante e rezar costumam ajudar. Os sonhos estão relacionados tanto à nossa saúde psíquica quanto física. Corpo e psique estão interligados ou, como disse Jung, ‘A psique e a matéria são aspectos diferentes de um único todo’.