Mais exercício, menos saúde: os dados sobre obesidade dos últimos 10 anos no Brasil mostram uma grande contradição nos resultados dos nossos hábitos.
Enquanto mais pessoas estão praticando atividades físicas no tempo livre, o índice de pessoas obesas cresceu 60%, de acordo com a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde.
É exatamente este cruzamento de dados que intriga especialistas. Se a perda de peso é o resultado do controle da ingestão calórica junto com a prática de exercício, o único fator que poderia estar em desequilíbrio nesta conta é a alimentação.
A busca por comidas saudáveis, no entanto, nunca esteve tão alta e resultou, inclusive, na criação de um nicho completamente novo no mercado – o de alimentação fit, que vem crescendo a passos largos.
O que, então, pode estar acontecendo? A obesidade aumentou apesar da maior preocupação com o corpo ou será que este fator pode estar contribuindo com o quadro?

Causas do aumento da obesidade
Para a nutricionista franco-brasileira Sophie Deram, doutora pela faculdade de Medicina da USP no departamento de Endocrinologia, a estatística aponta para uma conclusão não tão óbvia.
“O fato é que emagrecer realmente não é uma simples equação de comer menos e malhar mais, como muitos profissionais da saúde pregam. Cortar calorias e fazer mais atividade física é, teoricamente, a receita ideal para perder peso. Mas as estatísticas não mentem: a fórmula não está mudando o número de obesos no mundo”, comenta.
Para a especialista, não há uma explicação simples para o fenômeno, que está acontecendo no mundo inteiro. “Nos 30 últimos anos, nenhum país conseguiu diminuir o crescimento da obesidade. Nenhum tratamento é 100% garantia de sucesso, nem cirurgias, nem medicamentos, muito menos dietas.”

A complexidade da situação engloba fatores diversos que podem culminar no aumento de peso: síndrome metabólica, genética, problemas para dormir, depressão, relacionamento problemático com a comida e assim por diante.
“Não é possível tratar o obeso simplesmente como uma pessoa preguiçosa e que tem gula. É preciso explicar o motivo real na raiz do problema. Acontecem disfunções metabólicas e fatores externos que contribuem para a permanência da obesidade, e muitas vezes eles são desconsiderados nos tratamentos convencionais”, diz.
Fazer dieta engorda?
Para a nutricionista especializada em comportamento Gabriela Gentil, de São Paulo, os sacrifícios feitos na busca pelo emagrecimento provocam mudanças fisiológicas no organismo, que acabam por dificultar a perda de peso.
“Muitas pessoas aprendem a negar sensações fisiológicas de fome e saciedade e não respeitam suas vontades quando estão de dieta. A partir daí, é criada uma relação muito negativa com o corpo e com a comida. Uma vez que você rejeita a fome e prolonga o tempo de permanência em jejum, é possível que, depois, seja preciso comer uma quantidade maior do que comeria se tivesse respeitado os primeiros sinais de fome”, explica.

Culpa e relação problemática com a comida
Gentil fala ainda sobre o sentimento de culpa ao comer – uma reação muito comum hoje diante dos exemplos de perseverança e “foco” que aparecem o tempo todo em nossas redes sociais. Segundo ela, ao contrário do que possa parecer, esta emoção leva as pessoas a comerem ainda mais.
“Regimes podem até funcionar no curto prazo. Mas cerca de 90% das pessoas voltam ao peso inicial, ou até o ultrapassam, após abandonar a dieta. O cérebro não percebe a perda de peso como um sucesso de beleza, ma sim como um grande perigo, e, por isso, desenvolve mecanismos de adaptação para proteger você do emagrecimento excessivo”, explica Sophie Deram.

Alimentos bons X ruins
Lidar com proibições na alimentação é o suficiente para desenvolver um pensamento constante e exagerado sobre a comida, que pode até se tornar uma obsessão. O tema foi abordado recentemente pela culinarista Rita Lobo, que chamou atenção para a “medicalização” de certos alimentos e a crescente classificação das comidas como “boas” ou “ruins”.
Medicalizar a alimentação é distúrbio. Coma comida, não nutrientes. Coma variado e os nutrientes estão garantidos. Exclua ultraprocessados. https://t.co/Rh7G4a6NqU
— Rita Lobo (@RitaLobo) February 11, 2017
“Discute-se amplamente os nutrientes isolando todo o significado dos alimentos, que também possuem carga afetiva e social muito importante, além da questão religiosa. A comida passou a ser dividida entre saudável ou não saudável”, comenda Gabriela Gentil.
Deram e Gentil concordam que o descontentamento com o próprio corpo e a comparação com outras pessoas são gatilhos para que as pessoas descontem emoções na comida – fenômeno chamado de comer emocional.
“As pessoas se cobram muito e têm dificuldade de lidar com frustrações, como, por exemplo, descumprir a meta de ir todos os dias à academia”, aponta a nutricionista Gabriela Gentil.

Novos rumos no tratamento da obesidade
Atualmente, muitos profissionais da saúde têm mudado a abordagem com os pacientes obesos ou com problemas para lidar com a comida. O terrorismo nutricional tem dado espaço para um trabalho mais amplo e multifatorial.
Um estudo americano comparou a relação que belgas, americanos, franceses e japoneses têm com a comida. Foram abordadas crenças sobre a relação dieta-saúde, preocupação com alimentos, grau de consumo de alimentos modificados para serem “mais saudáveis” (por exemplo, reduzidos em sal ou gordura), entre outros fatores.
Ironicamente, o grupo que mais associa alimentos com saúde e menos com prazer é o dos norte-americanos, o país mais obeso do mundo. O grupo mais orientado para o prazer alimentar e menos orientado para a saúde é o dos franceses, um povo, em sua maioria, magro.

“Analisar o emocional tem ganhado mais espaço, o que é muito positivo, pois vejo a dificuldade que as pessoas têm em lidar e perceber suas emoções. Hoje a vida está muito intensa, assim como a relação com a comida. Cada vez mais entendo que é preciso incentivar o paciente a ter um meio-termo, mas esse trabalho exige autocompaixão, reduzir e trazer expectativas para a realidade”, fala Gabriela Gentil.
Para Sophie Deram, outra boa tática pode ser focar na prevenção da obesidade e do sobrepeso. “A OMS afirma que a obesidade é evitável, mas, uma vez que se estabelece, é extremamente difícil sair desse quadro. Daí a importância de evitar a doença em crianças, disseminar conhecimento entre as famílias e assim por diante”, conta a nutricionista, que segue uma linha também comportamental.
Tudo indica que um bom caminho para uma vida saudável é focar no bom relacionamento com o próprio corpo, com as expectativas e realidades, com o valor afetivo do que se come e, claro, com a mente.
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