Durma-se com um barulho desses!

Cá entre nós: não há pior incômodo durante uma noite de sono do que dividir a cama (ou a casa) com um roncador. Quem é que consegue dormir com uma barulheira infernal vinda do travesseiro ao lado? O que pouca gente sabe é que, dependendo da gravidade, o ronco pode trazer uma série de problemas de saúde. Ainda mais se ele vier acompanhado de um tipo de parada respiratória, chamada apnéia. Essa, sim, é de tirar o sono. Se não for tratada a tempo, pode até levar à morte.

Ao contrário do que muita gente pensa, o ronco não é privilégio de adultos. Pessoas de qualquer idade podem sofrer do problema, inclusive crianças. Só que essa probabilidade aumenta a partir dos 40 anos, principalmente na ala masculina, numa proporção de cinco homens para cada mulher. Com o aumento da idade, apesar de as causas ainda não serem conhecidas, essa proporção vai se igualando.

Causas

Para a maioria das pessoas, roncar é um hábito inofensivo. Para os médicos, porém, ele revela um problema: o enfraquecimento muscular da língua e da faringe. Por causa da flacidez, a língua relaxa e tomba para trás, tocando a parte posterior da garganta. Com isso, o fluxo de ar fica pequeno e provoca vibrações no palato mole (mais conhecido como céu da boca) e na úvula (ou campainha, como costumamos chamar), causando o barulho que tanto perturba o sono dos outros.

Mas afinal, o que é que provoca o ronco? “Nos adultos, o grande vilão é a obesidade, pois o acúmulo de gordura diminui o espaço da garganta, fazendo com que a pessoa tenha mais dificuldade de respirar. Depois, vem a obstrução nasal, que pode ser causada por rinite alérgica, desvio de septo ou pólipos. Já nas crianças, os principais fatores do surgimento do ronco são o aumento das adenóides e das amígdalas”, descreve o otorrinolaringologista Marcos Mocellin, do Instituto Paranaense de Otorrinolaringologia.

Apnéia

OK, o barulho incomoda bastante, mas o grande problema do ronco, segundo o médico, é a chamada apnéia do sono – que é qualquer parada de respiração acima de dez segundos. “Quanto mais tempo e mais vezes esses episódios acontecerem, maiores serão as conseqüências para a saúde”, alerta Dr. Marcos. E as crianças sofrem bastante com o problema. “Muitas mães relatam como os filhos se agitam no sono, choram, fazem xixi na cama. Como conseqüência, tem-se uma criança extremamente agitada ou muito desligada, pois ela tem apnéia na fase profunda do sono, chamada REM. É nessa fase que se repõem as energias e, por isso, a criança sente cansaço o dia todo, tentando reagir com hiperatividade ou se isolando”, conta o otorrinolaringologista. Outro resultado da apnéia sobre a garotada é a diminuição do crescimento, pois na fase profunda do sono acontece a liberação do hormônio do crescimento (chamado GH). Também pode acontecer, ainda de acordo com o médico, a queda dos níveis de QI, por causa da falta de concentração dessas crianças.

Nos adultos, nas fases mais leves da apnéia o resultado é a sonolência diurna. Com isso, quem dorme mal por causa da parada respiratória – podem ser várias na mesma noite – acaba dormindo na direção do carro, no trabalho, em reuniões de família… Resultado: desânimo, agitação, depressão e produtividade baixa. Já nas fases mais sérias, a saúde fica comprometida, com surgimento de distúrbios cardiovasculares, hipertensão, estafa e estresse, entre outras complicações.

Diagnóstico

Para fazer o diagnóstico do ronco, é preciso procurar a ajuda de um otorrinolaringologista. No consultório, é feita uma avaliação médica para saber como está a saúde do paciente e investigar as possíveis causas do problema. Depois, é preciso passar por um exame de polissonografia, em que o paciente passa a noite em um laboratório do sono, dormindo com sensores espalhados pelo corpo. “Esse exame permite avaliar o sono e saber qual o tipo de apnéia e sua gravidade”, explica o Dr. Marcos Mocellin.

Tratamento

Antes de optar por uma forma de acabar com o ronco, é preciso descobrir qual a causa dele. Quando existe uma obstrução no nariz ou na garganta, causada por crescimento de adenóides e amígadalas ou desvio de septo, é indicada a cirurgia. Nesse caso, a mais comum é a somnoplastia, um método pouco invasivo, que usa radiofreqüência para reduzir os tecidos das vias respiratórias e aumentar a circulação de ar. É realizada em consultório, sob anestesia local, e o paciente já pode até voltar para casa logo em seguida.

Se o caso é de flacidez no palato mole, pode-se usar laser para deixá-lo mais firme. Já quando não existe obstrução, é possível optar por placas dentárias ou próteses, que são como aparelhos móveis que mantêm a boca fechada e trazem a língua para frente, facilitando a respiração. Para qualquer outro caso em que a cirurgia não está indicada, existe uma máquina, a CPAP, que, acomodada no nariz, joga ar dentro dele durante a noite. Assim, evita-se o ronco e a apnéia.

Em algumas pessoas, que possuem o queixo levemente projetado para trás, a base da língua fica recuada, dificultando a passagem do ar. Para elas, uma solução pode ser a cirurgia ortognática, que ajuda a “puxar” o queixo para a frente, reorganizando a posição da mandíbula.

O que fazer

Não basta apenas seguir a cultura popular e tentar dormir de lado para evitar a barulheira. De acordo com o otorrinolaringologista, é preciso tomar alguns cuidados, como evitar comer muito à noite e ingerir bebidas alcoólicas e remédios para dormir, pois eles relaxam os músculos da faringe e acentuam o distúrbio do sono. Quem está obeso, claro, deve perder peso. “E, independentemente da idade, toda pessoa que tiver esse problema deve sempre procurar um médico, para que não haja mais conseqüências sobre a saúde. Quanto mais cedo for detectado e mais adequado for o tratamento, melhor”, aconselha Marcos Mocellin.